Orpheus, de Franz Stuck

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Céu sem estrelas.

Sozinho, na noite.
Olhando para onde ninguém olha.
Sendo o distante, o obscuro,
o astrólogo de um céu sem estrelas.
Nada. Nada. Não há nada e ninguém.
Somente um rosto pálido,
iluminado por uma luz abstrata,
fantástica.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ultimatum - Álvaro de Campos




Mandado de despejo aos mandarins do mundo
Fora tu reles esnobe plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas
Charlatão da sinceridade e tu, da juba socialista, e tu qualquer outro.
Ultimatum a todos eles e a todos que sejam como eles todos.
Monte de tijolos com pretensões a casa
Inútil luxo, megalomania triunfante
E tu Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral que nem te queria descobrir.
Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
Que confundis tudo!
Vós anarquistas deveras sinceros
Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar.
Sim, todos vos que representais o mundo, homens altos passai por baixo do meu desprezo
Passai, aristocratas de tanga de ouro,
Passai frouxos
Passai radicais do pouco!
Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa, descascar batatas simbólicas
Fechem-me isso a chave e deitem a chave fora.
Sufoco de ter só isso a minha volta.
Deixem-me respirar!
Abram todas as janelas
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo.
Nenhuma idéia grande, nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão!
E o mundo quer a inteligência nova
O mundo tem sede de que se crie
O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro.
O que aí está não pode durar porque não é nada.
Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar!
Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir o mundo novo.
Proclamo isso bem alto, braços erguidos, fitando o Atlântico
e saudando abstratamente o infinito.


Álvaro de Campos, 1917



sexta-feira, 21 de outubro de 2011



Gruas no cais descarregam mercadorias e eu amo-te.
Homens isolados caminham nas avenidas e eu amo-te.
Silêncios eléctricos faíscam dentro das máquinas e eu amo-te.
Destruição contra o caos, destruição contra o caos, e eu amo-te.
Reflexos de corpos desfiguram-se nas montras e eu amo-te.
Envelhecem anos no esquecimento dos armazéns e eu amo-te.
Toda a cidade se destina à noite e eu amo-te.


José Luís Peixoto, Gaveta de Poemas.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Pão.



Tenho ciúmes.
Sim... Ciúmes...
Ciúmes de todos aqueles que tiveram mais tempo,
Mais tempo para repetir que gostam dos seus olhos,
Ciúmes de todos aqueles que tiveram mais noites
para sentir o teu calor e os teus braços amigos,
Ciúmes, ciúmes de todos que te beijaram mais vezes,
que tiveram mais e mais chances de sussurrar ao teu ouvido 'eu te amo'...
Ciúmes, ciúmes... Mais chances! Era o que eu precisava!
Chances de dizer o quanto você é especial e querido,
Chances de repetir tardes de música, 
dias chuvosos de mimo,
Chances de sentir, mais vezes, aquela ternura, cândida, 
que invade nossas almas quando se tem a falsa ilusão de que se tem tudo...
Eu queria mais chances, mais tardes, mais dias e horas e horas... Mais, mais tempo!
Mais tempo para que pudéssemos descobrir constelações, criar as nossas, por que não?
Mais e mais tempo para caminhar, de mãos dadas, coisa que pouco fizemos.
Sinto ciúmes de todos aqueles que têm a certeza que voltarão a te ver... 
Se há algo de pesado em minhas lágrimas é justamente esta incerteza.
Bem se sabe e se ouve que o tempo e o mundo caminham sobre caminhos embaralhados,
rezo que no meio desse tear,
possamos nos reencontrar 
e desta vez, as lágrimas, se houverem, sejam por causa de uma partida curtinha,
nada como agora,
neste mar de saudade que já me encontro, sonhando, lembrando,
guardando na caixa dos sonhos, a esperança, 
Esta amiga de poucos, 
que faz de poucas migalhas, um pão.
E assim, 
rogo aos deuses,
se eles existem e fazem-se na indulgência,
que sejamos mais do que um sonho de condão.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Maria Bethânia - minha bruxa predileta.

    Não sei dizer quando extamente surgiu a enorme admiração que tenho pela cantora brasileira Maria Bethânia. O que sei é que minha mãe a ouvia, cantando as músicas de Roberto Carlos, principalmente. Sendo assim, desde jovem, gosto de ouvir as canções cantados na voz desta que gosto de chamar carinhosamente de "minha bruxa". "Bruxa" vem aqui como uma forma de dizer que Maria Bethânia possui uma grande sensibilidade, o que fica expresso em suas canções e em todas aquelas que canta. "Bruxa" no bom e mais belo sentido da palavra, uma encantadora de almas com sua voz , com seu sentimento, com seu jeito doce de ser e cantar.... Amo, amo Bethânia!
    Nos últimos dias, tenho uvido algumas canções interpretadas por ela. Canções, que na sua maioria, nem são originalmente cantadas por ela, mas que eu prefiro ouvi-las na sua voz.

















sábado, 15 de outubro de 2011

Eu não Existo sem Você - Maria Bethânia

" ... Eu sei e você sabe que a distância não existe 
e todo grande Amor só é bem grande se for triste... 
Por isso meu amor, não tenha medo de sofrer,
Pois todos os caminhos me encaminham para você..."

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Puxar de cortina



Não sei quanto a despedida vair doer-me
e nem procuro pensar no peso das lágrimas
prefiro aguardar pela saudade como quem a espera com a luz apagada
E quando ela adentrar no meu quarto escuro e apagar todos os hálitos quentes
que ainda me restarem
estarei eu calado 
consciente
para ser violado
mais do que corpo
em alma
E quando pesar demais,
hei de encontrar na doce memória
que vive e sobrevive 
a tua face querida 
dos dias ensolarados que tagarelavam com nossa felicidade
felicidade incontida e livre
e solta 
e linda
e jovem
 como as crianças devem o ser. 
Hei de ter dias cheios de prantos ímpios
infiéis à vida
e fiéis a ti e tua cálida memória vivente 
de nuvens de sonho e de maçãs que hão de ser todas proibidas
e doces como as delícias 
Hei de ver na margem do rio solitário fluente das águas do tempo e da memória
filhos de Narciso que fluem e flutuam
dizendo que a leveza não é utopia
mostrando-me quaisquer
coisas ou nada
epifanias
e realidades verdades sonhadas
jorradas de livros não escritos 
que o amor 
não se mede com tempo
nem com saudade 
O amor é ser indivisível 
e contraditório
preguiçoso nos egoísmos
benevolente na paixão  e pouco ou muito amigo na distância-solidão
Solidão que prova que pouco se sabe de ser só
Pouco se quer
e pouco se pode
mesmo se estando 
na maior parte da vida que cai para todos
ou sobe
para os filhos Hórus
Que seja e nada tema
no mundo incestuoso que é o nosso
Sentir é o que glorifica
Tudo
que vale é pouco
e do pouco tira-se muito
embora desconheça-se
E dito e findo
aqui
Sinto no peito
já a dor
Fecho a janela
ouço o dedilhar da melancolia no piano
Adeus, adeus....


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A Cadeia do Agrimensor - Gastão Cruz



Abre as asas a ave sobre o campo
medindo com as sombras angulares
o declínio da luz nesses lugares
inclinados Sob a fuga
dos núcleos e dos rastros

reais
no céu da ave
vê-se o campo dos anos preparado
para a vertiginosa viagem das imagens

Exterior à memória na
abóbada riscada de cabelos
e de penas dos astros recomeça
do fictício presente o bater lento
das asas
Com elos formando
o real irreal que
transporta no espelho de metal das
suas sombras
sonhos e cidades

a ave a
um cometa comparada
despirá a sua identidade sobre o céu do real
num voo alto
entre as chamas da luz recuperada

Autor: Gastão Cruz, "Ondas da Água Imaginária", 1999

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Fascinação - Elis Regina

" És fascinação, amor...."

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Casa no Campo

Sabe aquele momento em que você se sente cansado, olha em volta e vê que tudo que você quer é um pouco de paz, silêncio e companhia daqueles que ama? Então...


" Eu quero uma casa muitos rocks rurais
  E tenha somente a certeza dos amigos do peito e nada mais...
  Eu quero uma casa uma no campo
 Onde eu possa ficar do tamanho da paz..."

"Wilde" - Filme (1997)

Este filme mostra a vida do dramaturgo e poeta irlandês Oscar Wilde. É um filme fabuloso que revela a sofisticação e inteligência de um homem à frente do seu tempo, um homem que escandalizou a conservadora Londres do século XIX pelo modo como vivia sua vida sexual e amorosa.Casado e com filhos, Wilde viveu um caso turbulento com o jovem Lord Alfred Douglas, e isso lhe trouxe trágicas consequências. Qualquer pessoa que aprecie a obra de Oscar Wilde e tenha alguma admiração por aquilo que ele escrevia, gostará muito do filme. De resto, é um filme emocionante e interessantíssimo, com ótimos atores.

Trailer:


Destaco, do filme, uma frase que é um verso de um dos poemas que Alfred Douglas escreveu para Oscar Wilde: "The love that dare not speak its name", que em português seria: "O amor que não se ousa dizer o nome". Oscar Wilde usou esta frase para se referir à homossexualidade e criticar a ignorância e preconceito da sociedade inglesa para com os homossexuais.

domingo, 2 de outubro de 2011

Nicest Thing - Kate Nash





"(...)And I wish we could see if we could be something
And I wish we could see if we could be something
All I know is that you're the nicest thing I've ever seen..."