Orpheus, de Franz Stuck

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Todo Sentimento.


''...Um tempo que refaz o que desfez,
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez....''



domingo, 27 de maio de 2012

Ecos na Catedral - Madredeus



''
Os teus olhos são vitrais
Que mudam de cor com o céu
E quando sorriem, iguais...
E quando sorriem, iguais...
Quem muda de cor sou eu

Tomara teus olhos vissem
O amor que trago por ti
Nem o entardecer me acalma...
Nem o entardecer me acalma...
Na ânsia de te ter aqui

E o teu perfume, o incenso
Os ecos de uma oração
Misturam-se num esboço imenso
Afogam-se na solidão

Fui para um templo de pedra
Escolhi um recanto isolado
Que me faça esquecer tua voz...
Esquecer-me da tua voz...
Que me faça acordar do passado

Escondida em sítio sagrado
E não me apetece o perdão
Devo estar enfeitiçada
Náufrago do coração

E o teu perfume, o incenso
Os ecos de uma oração
Misturam-se num esboço imenso
Afogam-se na solidão

Não sei se perdoo o meu fado
Não sei se consigo enfim
Um dia esquecer que teus olhos
Sorriem, mas não para mim ''


Abajur Lilás - Plínio Marcos

Ontem, fui assistir a peça ''Abajur Lilás'', interpretada por um grupo teatral português  no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra. Trata-se de uma peça teatral brasileira, cujo autor é Plínio Marcos, escritor que escreveu, sobretudo, na ditadura militar. A peça conta o drama de três prostituas que sofrem com as explorações de um cafetão e de um mundo injusto, marginalizado e violento. A peça tem como pano de fundo o contexto da ditadura militar brasileira.

Vale a pena assistir e também ler a peça, que trata-se de uma ferrenha crítica ao regime ditatorial e suas torturas, lançando olhar sobre  um assunto que é, comumente, posto de lado, a prostituição. A peça tem ainda uma veia cômica.

Mais informações aqui: http://weblog.aescoladanoite.pt/?p=6413



'' Que será da luz difusa do abajur lilás 
se nunca mais vier a iluminar 
outras noites iguais?'' 

- Que será, música de Dalva de Oliveira

terça-feira, 22 de maio de 2012

Copo com alfazema.

As minhas tempestades se acalmaram,
as nuvens
que

bagunçavam-me por dentro,
que relampejavam-me
                         dores,
                    dispersaram-se.

As ondas que batiam forte
sobre as minhas mágoas
e não deixavam-me
chorar em silêncio,

      calaram-se
- o mar que há dentro de mim está quieto.

Não que não sinta mais nada,
não, inda choro,
e penso que há-de ser raro
o momento que encontrarei outro,
como tu,
que me agrade tanto,
no cheiro que me embriagava,
no modo como olhava
              para mim e para o mundo...

Meus olhos
ainda choram quando lembram
e sentem a tua falta,
Mas eu já estou em paz
com o lado da minha cama
   que fica frio,
   todas as noites.

Sinto,
sinto a Saudade
me morder sempre,
- e o ciúme também.

Olho pr'a ti, agora,
como um verão gostoso
que se foi,
como uma cantiga feliz
 que tornou-se fado.

Eu sonho,
e quero de novo te ver,
...
mas, juro,
uma calma me invadiu.

O meu coração,
que outrora gritara como louco,
enfim, descansa dentro de um copo
com alfazema.

As paredes do meu espírito,
sonâmbulas,
agora ressonam em algum silêncio.

As tempestades se foram.
 Restou uma chuva fina
...
delicada,
triste em lágrimas contidas,
melancólica em suspiros fundos.

Vou passear com meu guarda-chuva
e com os meus sonhos,

vou por aí, anjinho,
com a saudade,
com um punhadinho de sorrisos
e com alguma esperança
   por debaixo do braço.
Quem sabe,
um dia esta chuvinha também passe,
vá se embora,

e você venha pular as poças comigo.


domingo, 20 de maio de 2012

Queria ser um pássaro,
sozinho,
pequeno,

e nem precisava ser o rouxinol.

Mas iria voar,
livre e esquecido por aí.

sábado, 19 de maio de 2012

Dom Casmurro - O primeiro livro amado do meu coração


‎'Cá com meus botões', não encontro obra outra na Literatura que me encante tanto e da mesma forma como o primeiro 'livro amado do meu coração' - 'Dom Camurro':


'' Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela boca fora. Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo. As mãos, a despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com amor, não cheiravam a sabões finos nem águas de toucador, mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula. Calçava sapatos de duraque, rasos e velhos, a que ela mesma dera alguns pontos.''





As descrições rápidas, mas eficazes, feitas de modo quase caricatural, enfeitam esta que para mim é uma das obras máximas da Literatura Brasileira, ignorá-la é como dizer 'não' para o amor, ou manter-se trancado dentro de uma caverna quando o dia lá fora é bonito e tem borboletas. Mas é ainda ignorar uma parte escura e necessária do mundo, onde ressona um silêncio 'casmurro' sob ecos de melancolia e de Shakespeare.



- não preciso nem referir-me ao que penso sobre Machado de Assis, este gênio da Literatura Brasileira. Quando alguém diz-me que não gosta do que escreve Machado de Assis, eu simplesmente pasmo. Faço das minhas palavras as mesmas ditas por Harold Bloom no 'Cânone Ocidental', onde disse que se Machado de Assis tivesse escrito em inglês ou francês, seria um novo Balzac ou até mesmo uma espécie de Shakespeare no romance e em outros gêneros narrativos. Pra mim, ele sempre estará aqui, na minha cabeceira, no meu coração e orgulho-me muito do fato de termos este grande nome na Literatura Brasileira e Lusófona. -

sexta-feira, 18 de maio de 2012

''o primeiro amor do coração''

''(...) Agora , por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada. (...)'' 



ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. São Paulo: Abril Cultural, 1981.



Mafalda - Yo-Yó!









terça-feira, 15 de maio de 2012

Andorinhas.

O sono não me quis nesta noite,
e cansado de conversar sozinho
                 com meu travesseiro,
De criar e encher o futuro
                com balões,

pulei da cama,
E sem dar muito por mim,
ainda com os cabelos bagunçados,
sem muito escolher entre os cabides
 -  uma camiseta e um jeans  -

Saí,
ganhei as calçadas,
fui ouvir as andorinhas.

As andorinhas me querem,
e cantam para mim
   os sonhos que não tive à noite,
que me vêm
esvoaçantes
com as correntes de ar,
enchem meus olhos de luzinhas,

até dá vontade de gritar Esperança


domingo, 13 de maio de 2012

Delicadeza.

Solos de violão
mãos dedilhando notas sensíveis
Tardes de sol
Delicadeza
Céu azul azul
Nuvens brancas de algodão doce.

Na beira do rio,
sentado eu me lembro
que podia ser de novo ontem,
aquela tarde querida,

quando brilharam-nos
os nossos olhos,
E nossos ouvidos eram
tocados pelos sons dos passarinhos
que brincavam contentes...

Não pensávamos assim no Tempo,

éramos assim, assim sorriso,
novidade,
um gosto bom de goma na boca,

não doía assim tanto a Saudade.






terça-feira, 8 de maio de 2012

A viagem - Roupa Nova

''Coisas do passado são alegres quando lembram novamente as pessoas que se amam...''


Música que ficou conhecida através da telenovela 'A viagem'.





segunda-feira, 7 de maio de 2012

Naufrágios

Há dias em que
esta chuva fina e insistente
 consegue mesmo encobrir a tudo,

Os meus sonhos,
o meu pouco e leve sorrir,
cobrem-se, de névoa,
de preto,
fogem porque há medo,
todos os espelhos e todas as janelas
são ameaçadoras.

Não há gota d'água que pareça pequena,
nem suspiro que acalme meu corpo,
nem canção que me leve daqui.

Há, sim,
um pequeno quarto escuro,
que navega sob uma minúscula
luz de abajur,
onde ouve-se pingar na janela
um pouquinho de tristeza,
um pouquinho de solidão.

Há dias tão pequenos
e cheios de brumas
que meus sonhos não são nada,
não fazem luzir qualquer luz,
o futuro parece tão tão distante,
ondas atingem a tudo revoltosas,

vem, vem, marinheiro,
salvar meu barco do naufrágio!





quarta-feira, 2 de maio de 2012

Catulo e Juvêncio.

   

   Catulo é um dos mais célebres poetas latinos que precedem aquele que é tido como o Grande Poeta de Roma, Virgílio. Confesso que houve um tempo em que fui avesso à reconhecer a beleza e genialidade dos versos de Catulo - mas isto se deve a uma disciplina de Latim que cursei, onde fui obrigado a traduzir os poemas de Catulo, em um latim literário e duro! Latim é uma língua 'dura' de se aprender, sempre perguntei-me: «Pra quê estudar uma Língua morta?»  Hoje, passado algum tempo, com mais maturidade, intelectual e pessoal, com mais leituras nestes meus ombritos, eu consigo perceber a grandeza e a beleza do latim clássico. Sim, porque o latim clássico é muito diferente daquilo que o vaticano entende como a sua língua oficial. Agora percebo que o estudo da Língua Latina Clássica é extremamente importante, por exemplo, para entendermos a evolução da nossa língua materna, o português. Além disso, o latim fornece instrumentos utilíssimos para estudantes de Línguas e  nos dá noções incríveis de Sintaxe, que raramente podemos conseguir em outro lados. 
   Mas nos concentremos em Catulo. Hoje, numa aula de Literatura Greco-Latina, eu descobri que Catulo compôs inúmeros poemas, publicados no seu livro chamado 'Carmina', dedicados a um jovem que se chamava Juvêncio. Ou seja, Catulo tinha, para além da conhecida relação com a mulher que chama de Lésbia, um amante masculino, uma paixão homossexual. Isso não me assusta, afinal, estamos falando de Roma e bem se sabe que aquele povo era muito ''pra frente'' com questões sexuais, pelo menos no que diz respeito ao tratamento e modo como viam as relações homoafetivas, completamente aceitas e vistas como corriqueiras na maioria das cidades romanas. 
   Esta descoberta sobre a paixão de Catulo por um rapaz despertou-me a vontade de reler Catulo, desta vez sem a pressão de ter de traduzir seus textos, mas podendo apreciar a beleza de sua Literatura. Fiquei 'revoltadinho' também pelo fato da minha professora de Latim nunca ter mencionado a existência deste Juvêncio na obra de Catulo. Mas, enfim, graças a esta aula de Literatura, que é fantástica, pude conhecer esta outra face do tão dramático poeta latino do século I a. c., Catulo. 
   Deixo-vos um dos poemas que Catulo escreveu para Juvêncio. Têm a tradução e a versão original em Latim. Eu prefiro a versão original, é mais bonita, elucidativa, onde podemos perceber a real sensibilidade poética dos versos de Catulo. 

Aí têm os poemas, tradução e versão original, respectivamente:

'' XLVIII

Os teus doces olhos de mel, Juvêncio,
se alguém mos deixar beijar sem parar,
sem parar trezentas mil vezes os beijarei!
Não parecerei vez alguma satisfeito,
nem se mais basta que as secas espigas
for a ceifa dos nossos beijos. ''

Original:

'' XLVIII

mellitos oculos tuos Iuuenti
si quis me sinat usque basiare
usque ad milia basiem trecenta
nec numquam uidear satur futurus
non si densior aridis aristis
sit nostrae seges osculationis. ''



Estes poemas e muitos outros podem ser encontrados no livro de poemas reunidos de Catulo, chamado Carmina.