Orpheus, de Franz Stuck

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Catulo e Juvêncio.

   

   Catulo é um dos mais célebres poetas latinos que precedem aquele que é tido como o Grande Poeta de Roma, Virgílio. Confesso que houve um tempo em que fui avesso à reconhecer a beleza e genialidade dos versos de Catulo - mas isto se deve a uma disciplina de Latim que cursei, onde fui obrigado a traduzir os poemas de Catulo, em um latim literário e duro! Latim é uma língua 'dura' de se aprender, sempre perguntei-me: «Pra quê estudar uma Língua morta?»  Hoje, passado algum tempo, com mais maturidade, intelectual e pessoal, com mais leituras nestes meus ombritos, eu consigo perceber a grandeza e a beleza do latim clássico. Sim, porque o latim clássico é muito diferente daquilo que o vaticano entende como a sua língua oficial. Agora percebo que o estudo da Língua Latina Clássica é extremamente importante, por exemplo, para entendermos a evolução da nossa língua materna, o português. Além disso, o latim fornece instrumentos utilíssimos para estudantes de Línguas e  nos dá noções incríveis de Sintaxe, que raramente podemos conseguir em outro lados. 
   Mas nos concentremos em Catulo. Hoje, numa aula de Literatura Greco-Latina, eu descobri que Catulo compôs inúmeros poemas, publicados no seu livro chamado 'Carmina', dedicados a um jovem que se chamava Juvêncio. Ou seja, Catulo tinha, para além da conhecida relação com a mulher que chama de Lésbia, um amante masculino, uma paixão homossexual. Isso não me assusta, afinal, estamos falando de Roma e bem se sabe que aquele povo era muito ''pra frente'' com questões sexuais, pelo menos no que diz respeito ao tratamento e modo como viam as relações homoafetivas, completamente aceitas e vistas como corriqueiras na maioria das cidades romanas. 
   Esta descoberta sobre a paixão de Catulo por um rapaz despertou-me a vontade de reler Catulo, desta vez sem a pressão de ter de traduzir seus textos, mas podendo apreciar a beleza de sua Literatura. Fiquei 'revoltadinho' também pelo fato da minha professora de Latim nunca ter mencionado a existência deste Juvêncio na obra de Catulo. Mas, enfim, graças a esta aula de Literatura, que é fantástica, pude conhecer esta outra face do tão dramático poeta latino do século I a. c., Catulo. 
   Deixo-vos um dos poemas que Catulo escreveu para Juvêncio. Têm a tradução e a versão original em Latim. Eu prefiro a versão original, é mais bonita, elucidativa, onde podemos perceber a real sensibilidade poética dos versos de Catulo. 

Aí têm os poemas, tradução e versão original, respectivamente:

'' XLVIII

Os teus doces olhos de mel, Juvêncio,
se alguém mos deixar beijar sem parar,
sem parar trezentas mil vezes os beijarei!
Não parecerei vez alguma satisfeito,
nem se mais basta que as secas espigas
for a ceifa dos nossos beijos. ''

Original:

'' XLVIII

mellitos oculos tuos Iuuenti
si quis me sinat usque basiare
usque ad milia basiem trecenta
nec numquam uidear satur futurus
non si densior aridis aristis
sit nostrae seges osculationis. ''



Estes poemas e muitos outros podem ser encontrados no livro de poemas reunidos de Catulo, chamado Carmina.


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