Orpheus, de Franz Stuck

sexta-feira, 28 de junho de 2013

DESABAFO DE UM POSSÍVEL HETERÔNIMO PORTUGUÊS:

Há muito tempo que já não vivo em mim,
mudei-me para um outro sítio,
onde a vida é pacata, rural e posso sentir da minha varanda
o cheiro do mel
que as abelhas produzem todas manhãs.
É um lugar de silêncios, uma dessas aldeazitas do sul de Portugal,
cercada por extensos descampados e montanhas azuis.

Quem passeia pelas ruas tumultuadas,
cruza as avenidas,
perde-se nos becos,
sobe de bonde até Alfama
e admira Lisboa do alto
são os meus olhos - ninguém mais.
Quem, nas noites solitárias,
sai a procurar casas de fados
são os meus ouvidos - ninguém mais.
E quem bebe café, todas as manhãs,
n'A brasileira é ninguém mais do que a minha boca,
que há muito se calou,
enjoou do gosto das palavras.
As palavras... estas que, no entanto, são produzidas
incessantemente pela minha mente,
este relógio de sete ponteiros e de infinitos tic-tacs…
Ora bem, este é o ‘’meu eu’’ da cidade –
um ser que é nada mais do que sentido,
grito, fome, inconsciência.

Eu, eu-verdadeiramente-eu,
como já vos expliquei,
vivo distante,
em qualquer sítio que não seja em mim.
Pois. Vivo só e bem,
quase que esquecido do caos mundano,
das rápidas pausas para o café,
das buzinas, dos elevadores,
do insistente tocar de sino da Igreja de São Estevão,
que não me deixava dormir na juventude!

Mas às vezes,
só às vezes,
canso-me do canto dos pássaros
e de estar só nas manhãs mornas do interior...
Então, tiro o chapéu do cabide
e apanho o primeiro comboio do dia.
Geralmente, vou primeiro à Belém.
Insisto no velho hábito lusitano de admirar o passado,
a época em que fomos donos do Mar,
desbravadores do Oriente!
Desfruto, por alguns minutos,
da melancolia do velho Tejo,
acompanhado, é claro, pelos navegadores de pedra
que apontam para o sul…
para o mundo que jaz fora da terrinha!
Espero que a manhã cresça
e só assim parto para o centro de Lisboa…
Inevitavelmente, acabo por perder-me nos bairros da alta,
onde admiro os azulejos que insistem, novamente,
em me falar de um tempo que já se foi.
Por vezes, se tenho sorte,
esbarro comigo próprio,
com essa parte de mim que é viciada
em multidões, testemunha dos becos e
da boêmia da cidade.
Conversamos os dois,
pois… bebemos café,
comemos um ou dois pastéis de nata,
falamos da chuva que não chega
e dos discursos do senhor Cavaco,
que insiste em nos dizer
que a crise chegará ao fim…
Por questões de velho e enraizado hábito,
também acabamos por falar mal dos espanhóis,
os nossos irmãos das terras-de-dentro...
Conhecem o ditado
''de Espanha nem bom vento, nem bom casamento'' ?
Pois bem. 
E, se calhar, meus amigos,
se estivermos os dois de bom humor,
tecemos, ali mesmo,
sobre a mesa de ferro da pastelaria ,
alguns versos soltos… poesia de botequim,
dessas que atrai as moscas e cheira a cerveja de ontem
- é assim que nascem algumas das minhas criações,
que alguns dizem – os amigos mais próximos e generosos – 
 tratar-se, de facto, de poesia… de boa poesia!
É evidente que duvido,
ou hesito em acreditar…
Lembro-me sempre das aulas do Liceu
e de um gajo chamado Torres,
 professor de língua portuguesa…
que enchia a boca de saliva  e dizia: ‘’os bons poetas, os herdeiros de Camões, estão todos mortos!’’.
Talvez.
Camões está morto,
mas a sua língua não...
não é assim que cantam lá
para os lados do Brasil:
''gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões''...


Caraças! Já é tarde,
Alonguei-me demais,
tenho de pegar o comboio,
é o último – aquele que só passa às onze horas.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Tempo-novelo.

Foge das minhas mãos
como um novelo que cai
escada abaixo,
rolando,
desfazendo-se, 
desfiando-se,
perdendo-se dos olhos
-olhos que choram de saudade
e melancolia.

Ah, o Tempo!
Ele não volta,
está sempre a cair, cair...
Desfia-se tudo: dias, noites, pessoas
e até o céu.

Mas fica,
fica o gosto do café,
o cheiro do perfume,
a fumaça do cigarro,
o fado ouvido pela primeira vez,
o homem da barba por fazer.
E só com a morte
e talvez nem com ela
se percam e se esqueçam
as lembranças.

Desabafo veraneio.


Raros são os verões dentro de mim.
Gosto das épocas amenas
em que o Sol não se aperta contra a gente
e o frio não nos congela quando a lua desvela sua face pálida.

Contudo, quem pode evitar o inverno?
Quem pode se ver livre das noites frias e solitárias
em que os únicos amigos e sorrisos
são o gosto do chá e a página de um livro...?

Mas o verão e seu calor exagerado
- suas areias queimadas e seus corpos suados-
faço questão de os pular e esquecer...

Assim,
o outono me é quase eterno
e as andorinhas, coitadas,
só me chegam na Primavera
- floridas, cheias de sede e versos.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Suspiros de um fim de madrugada em Coimbra.

  Ah, aí vem novamente o fantasma da madrugada, vestido em vultos, com seus pios noturnos e olhar de gato - seus olhos atravessam-me por dentro, fitam meu espírito,  desvelam meus medos e desejos.  Ele sabe exatamente aquilo que quero. E Sorri - um sorriso contido e indulgente, como aqueles sorrisos que escapam da boca das mães quando beijam, compadecidas, os seus filhos que dormem aflitos. Ele chora também. Chora devagarinho, tem pena do mundo e de suas penas. O mundo tem penas demais.Penas, reis, amores, cítaras, poemas... Julietas e Romeus que choram sob esta ponte que não leva a lado algum - ''ponte dos amores desencontrados''. Diz-se que há debaixo dela uma moça de olhar vago e braços finos, que ainda tem ânimo para tecer alguns versos, chama-se Inês. E Ele, a quem um dia chamaram Pedro I de Portugal, com o corpo esguio e queixo levantado, como se quisesse mostrar o brilho de uma coroa que não brilha mais, sussurra bem baixinho o nome dela... Mas tem medo que alguém o ouça.

«A Saudade,
eis a sombra roxa, rebelde e constante
que dá asas à imaginação do poeta, 
que bebido de insônias acha que consegue compor versos que traduzam o seu peito, os seus suspiros...»

a porta da imaginação
- por onde entram  ventos, palavras e sonhos - fecha-se de repente. 
A noite cala e o corvo grita: 
nunca, 
nunca mais.»


SER POETA, SER CRIANÇA.

o poeta não escreve para dizer bonito,
para ser sublime ou para ouvir
os outros a dizer
que debaixo de seu chapéu de poeta
estão escondidas belas e raras palavras.

o poeta escreve para curar velhices,
para reamolecer as juntas
e acotovelar casmurrices.
Escreve, sim, para dilatar a pupila
como fazem os miúdos
diante de uma borboleta que se descasula.

a sublimidade do poeta
está em voltar a vestir a jardineira azul de sua infância
e ir buscar nos jardins-do-mundo
os (des)sentidos
que colorem
e resemeiam a vida.