Orpheus, de Franz Stuck

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Vaivém

Nem choro,
nem canto.
Só um ir
e um vir,
incessante,
indiferente.
Onda vai,
onda vem.
Como se a mágoa
e a alegria do mundo
se tivessem apagado.

- Luísa Dacosta em ''A maresia e o sargaço dos dias''.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Asleep

sing me to sleep
and then leave me alone
don't try to wake me in the morning...




que pena,
amor,
eu plantei tantos versos nos teus ouvidos

e nem um
nem um brotinho de poesia sequer
mísera singela pequena que fosse
nada

só os números tontos
os códigos brutos
as camisas de flanela
e o cigarro que tu fumas de um jeito bonito

não amo canteiros onde a poesia não nasce
mas te amo
porque quer queira quer não
é abraçando o inverno
que a gente sonha e cria as primaveras

fica faltando
então
dizeres com a boca
encostada na minha
o que teus olhos de anjo
nunca negaram:

se sou eu um pobre e teimoso girassol
que nasce olhando pro chão
tu és o meu sol
que me abraça
me aquece
e me dá tudo
a terra
a saliva
e o céu.

o tempo come

come os dias com uma voracidade
que assusta
come como uma criança recém-nascida
louca pelo seio da manhã
que está cheio de leite
come como uma fera
que não vê carne há três dias
come avassaladoramente
como o sol que engole sem pena os meteoros
que correm para o seu abraço
come como a mulher do pipoqueiro
que não cabe mais em seu vestido verde
come como hiena desmemoriada
come como um cardume de piranhas
come como a ferrugem
que mata o pulmão dos homens
come como um monstro
cuja garganta é um poço negro sem fundo
come como o escuro
como os medos e
como a noite dos lugares ermos
come como os grasnidos de um lobo
e os assobios de um rouxinol
come como o lamento de um fado
e o suspiro lento de uma viúva

come, enfim, como os versos que o corvo me traz!

o que o tempo não come?
o tempo come tudo,
os corpos, as mentes,
o passado, o presente e o futuro
come o que homem quer
e aquilo que despreza
come a sua memória
e o seus sonhos perdidos...

só não come a si próprio,
só isso o tempo não come.
Não come a si próprio
porque não é mais que um buraco,
um lugar fundo e sem fim
um sopro duro de nada
que é quase quase
o tempo é quase
tudo.