Orpheus, de Franz Stuck

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

ALÉM-MAR

( ao Pedro R.) 

sobre a janela
no parapeito
sonhávamos o mundo
as estrelas brilhavam
como nunca mais as vi brilhar
e a noite tinha uma mania doce
de dançar
de parecer infinita
de crescer dentro da gente
feito uma rede brilhante de versos

o fim estava tão distante
que nem dávamos por ele
o céu da Ibéria era grande demais

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Além-dor

não sei que bicho me mordeu,
nem que feitiçaria me tocou
- é sempre a mesma vontade magoada de tecer versos.

pequenos versos de algodão
-retalhos-
costurados à força numa manta roxa que nunca
encontra um fim.

Manta esta que é meu capote,
meu guarda-chuva
e guarda-frio.
Meu passaporte às terras de Além-dor.

14/09/2012
«deixa doer»
- um dia isso vira balão e sobe.
Sobe e se perde no tempo, no céu-turquesa da memória.

Por ora,
mete tudo numa xícara de chá
e bebe como se fosse camomila.


29/11/2012

A FACE DE DEUS

Olhar a face de quem se ama é como olhar a face de Deus
- e diria eu na mais sincera heresia: a face de quem se ama é a face de Deus.

Ainda que somente aos nossos olhos,
o amor - o nosso amor - é sempre o maior
e o mais bonito e o mais perfeito dos amores imperfeitos
- amar nunca é suficiente e não existe sob as estrelas do firmamento
 um único  amor que seja isso: perfeito.
Mas ainda assim,
ele me parece lindo,
embora eu saiba o calvário que cruzei
e a cruz na qual serei pregado no fim do caminho
 - como deus foi.
Deus tolo e impotente pregado por Amor!
Valeu a pena dar o sangue por amor?

Amar é sempre pouco e impossível,
o outro nunca está dentro da gente,
nunca nos pertence e nem esquece de si
porque nos ama, ou diz amar.
A dúvida aqui - a minha inconsolável dúvida-
é a seguinte: o que é o amor?
Não seria ele apenas uma doce e ilusória criação?
Um sonho?
Um poema sonhado mas nunca encontrado?
Uma ideia-pensamento? Nuvem de poeira?
Tempestade?
Ou seria medo da morte?
Pior: medo da morte e da solidão.
Seria, então, somente medo?
Ecos-fantasmas e egoísmo?

Não sei, não sei, não sei.

Sei
que sou já um vaso transbordante de dúvidas,
um cálice rachado, por onde fogem o sangue - os versos.

Ai, dúvidas ensopadas, salgadas... que não me deixam dormir!
Não durmo! E vocês?
O amor,
as ideias, o sonho e as vontades vos deixam dormir?
Não há  camomila que me dê jeito
nem lua nem canção que abrande o pensamento...
Nem verso puro que me mate,
que me enlouqueça por completo,
que me encha de esquecimento!

Sou eu só uma Saudade que morre e morde. Morde.
Morde-me de raiva, de vontade, de querer e não querer,
de achar belo o que no instante seguinte amaldiçoo.
Ai de mim! Ai do meu amor e dos meus sonhos!
Ai de todos esses fantasmas e lembranças!
Ai de Narciso e desta face!
Esta face... esta face... a mais linda e encantadora face.
Daria toda a minha poesia se pudesse tê-la novamente,
olhando-me deitado no travesseiro,
procurando-me nos olhos...
Isso é só vontade?
Orgulho pela perda?
Ou é isso que chamam de Amor?
Amor?
Amor... Volta. Ainda que miragem,
volta.

*

- Não, não é amor. É só o vento lá fora.
Suspiro aliviado, mas ainda perturbado:
que amor,
que amor é esse que não me deixa?
Solto os meus olhos no infinito escuro
 e vejo estrelas cintilantes
que só me cantam torturas, fados... nem elas, nem elas
são tão belas quanto a face daquele que Amei.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Dos poemas perdidos, aqueles que escrevo e esqueço nos versos de extratos bancários:

na estação
somos todos um mar
de gente sem rosto
sem vidas
sem ontem
tudo são pressas
o que importa
são os horários dos trens
que partem atrasados

ninguém espera o amor
na estação

ele não descerá do trem
que chega às duas
não matará com um beijo
a minha amargura.
garoto sorridente
dos olhos de mar
por muito pouco
não toquei sua boca
e beijei seu corpo
os seus cabelos ondulados
ondulam agora
um outro corpo
uma outra praia
que não minha cama
Hoje, desenhei a distância


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Outra das minhas traduções:

Deito a cabeça
para fora da janela, e percebo
o quanto deseja cortá-la
a lâmina fria do vento.

Nesta guilhotina
invisível, eu pus
a cabeça sem olhos
de todos os meus desejos.

E um odor de limão
preencheu o instante imenso,
como se o vento
estivesse a se converter em flor de seda.

(Federico García Lorca)