Orpheus, de Franz Stuck

sexta-feira, 21 de março de 2014

Morfeu.

vem, Morfeu,
deita sobre o corpo meu
deixa-me sentir o teu peso
teus braços quentes
teu hálito de flor anestésico.

vem,
penetra-me,
penetra-me com força
e sem pena
com teu falo mágico
para que eu possa gemer
descontraindo vértebras
e mágoas

põe-me a dormir, Morfeu,
transforma-me nisso,
no que tu és:
esquecimento.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Poema sem título de Álvaro de Campos.



Hoje estou triste como um barco negro ao sol.
Minha alegria foi-se embora com as malas.
Meu coração anda por casa do silêncios
Abrindo as portas e espreitando para os quartos.
E tudo isto, que não tem nenhum sentido,
É o sentindo essencial da minha vida…

Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto…
Sim o resto parece-se apenas com a vida.

Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras despreocupadamente
E não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que me seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.

Fumo, sonho, recostado na poltrona.
Dói-me viver como uma posição incomoda.
Deve haver ilhas lá para o sul das cousas
Onde sofrer seja uma cousa mais suave,
Onde viver custe menos ao pensamento,
E onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
E acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
Nem no dia do mês ou da semana que é hoje.

Abrigo no meu peito, como a um inimigo que temo ofender,
Um coração exageradamente espontâneo
Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real
Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta,
Canções trites, como as ruas estreitas quando chove.

Dai-me rosas e lírios,
Dai-me flores, muitas flores,
Quaisquer flores, logo que sejam muitas…
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas
Em me dardes muitas flores.
Nem isso… Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço
Que me deis flores…
Seja essas as flores que me deis…

Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio
Sob o céu cheio de sol!
A minha agonia da realidade lúcida!
Desejo de chorar absolutamente como uma criança
Com a cabeça baixa encostada aos braços cruzados em cima da mesa,
E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,
Estando eu a chorar naquela posição.

O homem que apara o lápis à janela do escritório
Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.
Haver lápis, e aparar Lápis, e gente que os apara à janela é tão estranho
É tão fantástico que estas cousas sejam reais!
Olho para ele até esquecer o sol e o céu.
E a realidade do mundo faz-me dores de cabeça.

A flor caída no chão.
A flor murcha(rosa branca amarelecendo)
Caída no chão…
Qual é o sentido da vida
(que sentido tem a vida?)

***

Álvaro de Campos

quarta-feira, 12 de março de 2014

Saudades eu não as quero

Bateram,
Fui abrir era a saudade
que vinha para falar-me a teu respeito,
Entrou com um sorriso de maldade,
Depois sentou-se à beira do meu leito
e quis que eu lhe contasse só a metade
das dores que trago dentro do meu peito...



Este texto trata-se, na verdade, de um poema escrito por Afonso Lopes Vieira (1878 - 1946), poeta português, nascido na região de Leiria. O poema pode ser encontrado no livro ''Saudades Localidade: Não Quero ter''.

quinta-feira, 6 de março de 2014

ENCANTAMENTO

quem me dera ter as asas
das palavras

vento andorinha céu

para que
como num encantamento lúdico

pudesse
fugir e brincar de ser
outra coisa
que não eu
lágrima
chão

quarta-feira, 5 de março de 2014

CANÇÃO ( Allen Ginsberg)

O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação

o peso
o peso que carregamos
é o amor.

Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano —

sai para fora do coração
ardendo de pureza —

pois o fardo da vida
é o amor,

mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.

Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor —
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
— não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:

o peso é demasiado

— deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.

Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho —

sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.

--- Texto extraído do livro "Uivo: Kadish e outros poemas" (L&PM, 2010). Tradução de Claudio Willer.