Orpheus, de Franz Stuck

domingo, 30 de novembro de 2014



ver
Órion no céu

é lembrar de um tempo
em que eu andava só
por Coimbra
subia ladeiras
descia escadas
atravessava as ruas sem olhar para os lados


na esperança de que o amor
me atropelasse
novamente
o amor que eu havia perdido,
visto ir embora tão rápido, numa escala no Porto,
tchau e nunca mais!


olhar para o céu hoje
e ver as mesmas estrelas brilhando,
ainda de que cabeça para baixo,
é ter certeza de que a terra gira
e nós também,
como giramos...

eu não sou o mesmo
já não choro nem uivo de amor
durmo tranquilamente, bebo chá
passeio sozinho com o coração vazio
cheio de paz
escrevo versos
não me emociono
acaricio meu cão

ah!
ver Órion gigante
no céu hoje
nesta noite de novembro
do hemisfério sul

é sentir, num sopro noturno, muito de leve,
a mesma dor
que eu sentia quando subia
as escadas de Coimbra
e pedia
como criança
que tu voltasses!

hoje já não peço nada

vejo Órion
brilhante no céu
como antes eu via

e sorrio
feliz,

as coisas passam, o amor se perde
na vida
como cisco

só nos restam as estrelas
inconfundíveis
lampiões
setas
que clareiam e rememoram
caminhos, o mapa

do nosso ser

ver
Órion no céu
hoje
foi como reacender 
(refazer)
um caminho
que há muito havia esquecido.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

É noite,
meu olhos, acostumados ao escuro do mundo,
procuram no entanto
uma luz,
fria mas viva.

Lembrei do mar
que vi nos teus olhos naque dia.

O meu coração é uma nau lusitana,
meu corpo uma espada erguida,
minha vida uma Cruz.

Em qual destas ilhas
estás tu, Calisto?

Tenho cá, nos bolsos,
umas violetas, são tuas.
Na boca, uns beijos pra te dar.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

OLHAR ETÉREO

enfim,
eu só queria que este meu olhar etéreo, sabe,
me levasse para lá


para o éter,
para além das nuvens
algum planeta onde haja só fluído, paz
e sorrisos sinceros

o meu olhar etéreo
que fita o impossível
que ainda chora as asas que perdi
num passado distante, relativamente esquecido
que sempre volta, lapsos no ônibus,
onda do mar, me vi n'outra vida

este olhar, sabe,
este olhar etéreo e vacilante,
é, na verdade, a encarnação da minha dor,
que é a dor dos famintos,
das meninos e meninas
explorados na China e em qualquer lugar
onde haja gente assim, sofrendo,
o olhar etéreo e triste dos homens e mulheres
cujas mãos são só feridas,
cujo sonho é uma saída
e a vida nunca lhes sequer
deu um copo decente de água limpa,
o olhar daqueles que têm olhos
mas nunca viram
o amor passar diante da tela,
da janela,
deitar-se na cama, nu
e aberto para um beijo,
o amor genuíno, puro, amor nuvem,
o amor, sabe, de que nos falou o Cristo...

então, sabe,
o meu olhar de nuvem pássaro mente
de vapor e de água azulada das cataratas de Iguaçu,
o meu olhar árvore que balança no outono
folhas amarelas,
papel dentro da gaveta, cartas que nunca foram enviadas,
o meu olhar
saudade
fado português
palavra sem tradução

é a minha maior prisão

mas é ele
n'ele
que sonho,
como não poderia deixar de ser,
gaivota,

a minha provável libertação,
utopia.


(C. Berndt) 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Suplício

doce suplício
o de amar alguém assim,

grande suplício amar alguém que não existe,

tolo suplício amar quem  nos deu tão frágil guarida
e jamais dirá com a boca aberta em alegria
e com os dentes à mostra:
''volta, amor''!

suplício
que só me é útil por aqui,
nos escuros corredores da poesia,
nestes quartos desertos por onde me perco,
grito,
e esqueço um pouco de mim,

onde costuro, então, nuvens, invernos
e invento lembranças,

doce suplício
doce,
adorar quem só nos deu a solidão do mar
e as lágrimas todas
de um país que só me ensinou a amar,


doce suplício o de te amar, Portugal,
por que não me deste asas suficientes
para te reencontrar?


A semeadura é livre...


Cá neste mundo,

hoje ando em busca de luz,

por estes jardins,
quero semear lírios de paz,
crisântemos de reconciliação
e amor genuíno em forma de jasmins,


pois só assim é possível
desembaraçar os cipós,
livrar-se dos espinhos
e compensar as sementes duras
de sofrimento e mágoa
plantadas por mim
em meu passado de incompreensão,

o caminho para a libertação,
então,
é a semeadura do bem,

a caridade de puro e elevado coração,
que nos dará as asas
tantas vezes recusadas

e nos levará, enfim,
para mais perto de Deus.