Orpheus, de Franz Stuck

sábado, 6 de dezembro de 2014

MAPA DO CÉU

abro os olhos, é noite
a luz branca da lua toca os cantos mais escondidos da terra
lugares escuros onde quase ninguém vai, estalos de beijos
o meu braço esquerdo está iluminado
a mão aberta erguida me faz pensar num lírio

muito abaixo, quase tocando o mar, flutua Sírius
a estrela mais azul da galáxia
sinto-me importante por identificá-la
ela que os egípcios chamavam de mãe
Ísis, a mãe dos homens, protetora dos escravos e oprimidos

eu sou um oprimido, Ísis, canis majoris
olho agora para ti, para o teu brilho
quero paz e um lugar feliz, esperança
de um lugar para amar sem ser julgado, um homem
dá-me um homem, Ísis, de olhos esfíngicos e maternos, como os teus

por fim, é com ele que me confronto
o portador do mundo invisível, aquele que mede nossos corações
o juiz, deus da noite e da verdade, Osíris de olhos luminosos
que aponta para longe, fala do meu passado e do meu destino
constelação maior a que os gregos chamavam Orionte

fim do encanto
quis o deus que eu acordasse, uma grande nuvem cobriu metade do céu
um cisco caiu no meu olho, um asteroide da nuvem de Oort
ainda é noite, não vai chover como vi no telejornal
Nibiru ainda está longe, nada faz muito sentido, posso escrever em paz