Orpheus, de Franz Stuck

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

por estes mares tantas vezes navegados...

dormes delicado
profundamente
os teus suspiros materializam-se e tocam minha epiderme
os teus lábios semiabertos pedem-me, mesmo estando entregue a Morfeu,
um beijo de amor


dormes sobre os meus lençóis
entregas o teu corpo a mim
ao meu deleite e ao meu cuidado
não diferente do que faço, entregando-me, deixando-me
perder no mar vasto que és tu

e como nauta
Vasco da Gama pós-moderno
sigo por estes mares tantas vezes navegado
ciente de que logo ali, em frente
posso esbarrar
no Adamastor amargurado

mas que seria eu
que tipo de homem seria
se deixasse de navegar simplesmente por medo
de naufragar sozinho?

ao menos
terei possuído parte ínfima do mar
o que é uma doce ilusão, eu sei
mas é assim que vivo
com uma cruz de amor desenhada no peito
sonhando com um mundo fraterno
e que todos os beijos nossos sejam sempre ternos

passar pelo Cabo das Tormentas
é necessário
para que ele se torne, quem sabe
o Cabo da Boa Esperança
que por o termos cruzado
conheceremos, talvez
laivos de amor verdadeiro
e a dança
dos corações felizes
das almas humildes
os rostos iluminados

e o rei tantas vezes esperado
talvez seja de fato verdade
el D. Sebastião, essa alegoria agridoce
cheia de saudade
que inventamos pra mudar as coisas
transformar nossas vidas
acreditar que é possível

dorme
por enquanto ainda tenho força pra girar o leme
o mar está calmo
e o Horizonte, brilhante,
enche meu corpo de fé
as névoas que teremos de cruzar estão distantes
quem sabe se desfaçam diante das nossas vozes

quem sabe façamos as Iras dormir
e as convertamos em doces ninfas do Atlântico
a velar
nosso cântico, a remar esse barco de carne
e afeto.

***

C. Berndt
16/12/2015
brilha no céu o Sol
da piedade divina
a iluminar nossas delicadas vidas
mesmo sendo a Terra ainda tão parca guarida
tão cheia de misérias e feridas

brilha o Sol da amizade
da beleza, da santa humildade
do amor fraternal e sublime

entrega submissa
que é teu corpo deitado sobre o meu,
jovem Orfeu

candelabros se acendem por todos os lados
luzes e formas fálicas surgem na floresta
do breu

brilha, brilha
calor que incendeia e contenta
tanta ternura
que emudece

e em meu peito resplandece
uma estrela azul de seis pontas
onde dentro há uma cruz
da cor violeta

brilha no céu o Sol do Amor
que põe fim à violência
e me faz acreditar num mundo sem dor

deita então em meu colo,
Jacinto,
amigo, antes que venha a morte,
cantarei para ti,
eu que sou filho de Apolo,
querido das ninfas e da sorte,
acenderei as luzes do corpo
e te levarei ao céu, ao céu

onde será canto nobre e excelso
os gemidos e gritos
que dermos ao norte

reverberado-nos em prazer
em prazer
em prazer
em prazer

num doce, doce

vai e vem

como ondas

e luz no infinito!

***
C, Berndt
10/12/2015 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Volúpia (Florbela Espanca)



No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...


Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

(des)encontro

talvez um dia te encontre, por aí
há de ser um reencontro, contigo e comigo próprio


tantos séculos depois, quase nem acredito, little boy,
aquela separação ainda me dói

desde miúdo te sinto, amigo etéreo
abraças-me invisível e eu te quero
sentir
com esse meu corpo incerto
essa gaiola, máquina, concha
olho para o céu, lembro do Ícaro que fui e ainda me desespero

talvez um dia tudo isso ganhe uma outra cara
outro tom ou forma-desejo
bem poderias vir aqui, possuir, alma austera,
aquele rapaz bonito da esquina e me dar um beijo de matéria

ok, estou a ouvir:
o espírito
a consciência
o éter
a leveza
a caridade
o mundo verdadeiro, não o das cópias e aparências,
eu sei...
a espera, a espera

quando eu era miúdo
eu já te sentia, sabia quem eras
a saudade sempre me foi essa coisa grande,
voraz, tristeza de alma e um andar sem força nas pernas

hoje eu vi nuvens branquíssimas
rumando com calma para o sul, algum lugar azul
ah, como eu quis ser elas

e no lago idílico
eu tentei ver meu rosto,
nada vi, nada vi
eu não sou esse corpo

o dia termina e eu vou dormir
a pensar que enquanto não chegas
que enquanto não parto
eu aqui fico
a mentir
a morrer
a tentar, por delicadeza, o pão e a bondade dividir
a esperar que a aurora me descubra
e seja, amigo,
o fim, o fim desses estranhos milenares conflitos

ainda que 
tudo isso seja bonito
devido ao nosso (des)encontro infinito!

***

C. Berndt
29/11/2015


domingo, 29 de novembro de 2015

Já sobre a fronte vã se me acinzenta
O cabelo do jovem que perdi.
Meus olhos brilham menos.
Já não tem jus a beijos minha boca.
Se me ainda amas, por amor não ames:
Traíras-me comigo.

Ricardo Reis, in "Odes"
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

sábado, 28 de novembro de 2015

caminho de Santiago



sigo o caminho do peregrino, a via sacra de terra,
comecei pelo ópio, mas antevejo a salvação

é noite e meus olhos castanhos miram o céu com admiração,
colcha negra manchada de esperma,
esperma divino, é certo,
qual dos deuses terá sido o autor da imensa ejaculação?


e no norte gélido vejo a Ursa mãe,
brilhante constelação,
guardada pelo boieiro desumano,
que em sua rouca voz de animal diz ao filho que não mais a reconhece:
o amor de Zeus nos condenou, a ira de Hera verteu nosso sangue,
destino arcano!

fecho os olhos então
e já não mais estou
no norte do atlântico,
mas no sul sidéreo, onde quem brilha na noite é o crucifixo etéreo,
teu corpo sob o meu é agora como a colcha que o deus sujou,
entre as estrelas negras que são teus sinais, surge como mágica, cândida,
esplêndida,
gigante e brilhante galáxia, obra efêmera,
delícia da carne e da paixão,
caminho de Santiago nascido da minha ejaculação!

***

C. Berndt

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Eu: Zeus, volúpia, fome, astúcia.
Tu: Ganímedes, delicadeza, sensualidade, beleza.

Eu deveria te raptar, sim.
Mas é preferível que tu venhas até mim.
Adormeça agora o teu corpo e, liberto dos grilhões da matéria,
voe, venha, estou aqui.


Hoje, dá-me o ânimo, o espírito.
Amanhã, dá-me o pão, que é teu corpo.

Estará completa a Eucaristia
quando depositares em minha boca
o vinho e o gozo
dizendo-me contente: o corpo de Cristo.

***
C. Berndt
12/11/2015

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

FOGO-FÁTUO

os meus olhos no Horizonte fixos
num mar infinito, doloroso, de muitos crucifixos
em peitos de poetas
e vidas de homens e mulheres
fincados
à força,
no Horizonte infindo,
eu vi, nesta noite incauta,
translúcida,
encoberta de poesia e silêncio,
eu vi, sem nuvens, longe, pulsante, vivo, no Horizonte,
o fogo que corre, o fogo fátuo, quente,
eterno, vibrante,
nascido das florestas de ontem,
ancestrais,
onde
antes, do tempo, havia o nada,
sem voz e frio,
eu vi, qualquer coisa no cio,
pronta para me engolir,
sentir, tocar, masturbar,
do inferno e do céu vir
para me mostrar qualquer coisa de eterno
e fugaz,
eu vi, lá,
no fim, sem ar,
onde há o azul e tudo é quase negro
e o sóis pura melancolia,
eu vi, lá,
o que um dia os povos primeiros
da América, desta terra,
puro degredo,
terra roubada, violada, ferida,
que antes tinha outro nome, nome esquecido,
por certo,
a luz, a vontade, o facho, a luxúria, o sonho, a ira,
o falo, a espada, o útero,
de um deus, sujo, impuro, humano,
quente, ardente,
tonto, incoerente,
brilhante, eu vi, verdadeiro carcará,
a circular, a voar,
a me chamar,
aquele
que eles
chamavam boitatá,
a face de um homem,
do demônio,
do futuro, olhos de mercúrio,
perjúrio,
eu o vi, fantasma, espectro, destino,
onda, raio solar,
doce sensação dos corações que amam,
eu te vi, engano,
luz maldita
ou bendita, não sei o que é pior,
eu te vi,
no Horizonte,
serpente,
distante, muito distante,
infelizmente,
perdendo-se, caindo, sumindo
para sempre,
sem nunca nunca nunca
pisar o chão novamente
e pedir-me, dolente,
cansado, contente, perdão,
perdão, amado, querido, odiado
D. Sebastião.



C. Berndt

EURIDICE (Miguel Torga)

Agora,
São as Fúrias
Que me dilaceram.
O que de ti me deram
Os deuses infernais,
Não era teu.
Sombra dum sonho que já não vivias,
Em vez de iluminar, enegrecias
O caminho de Orfeu.

E fitei-te nos olhos, luzes mortas.
Caronte abrira as portas
Da minha perdição.
Todos os condenados,
Libertados
No momento supremo do meu canto,
Regressavam ao pranto
Da condenação.

E eu próprio ia arrastar
A minha pedra de desassossego.
Eu próprio ia ter sede
E fome, eternamente.
Eu próprio recebia,
No espírito e na carne,
O beijo enraivecido
Das Iras,
Que não perdoam a nenhum mortal
As divinas mentiras
Que o amor desmascara, por seu mal.


Miguel Torga em Orfeu rebelde. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

PARA O DIA DOS ''MORTOS''

E dizem as vozes do Além-túmulo:

Mais mortos estão vós.
Presos à gaiola orgânica, podeis ver tão pouco, sentir tão pouco,
compreender ainda tão pouco.


Quando, enfim, se rompem os grilhões
e voltamos à Pátria do Espírito,
voltamos ao nosso estado natural,
os ouvidos então se afinam, a visão se desentorpece,
o véu que encobria a memória milenar é desfeito como fumaça
e o passado nos surge diante dos olhos, tudo se torna mais claro.

Aqui, deste lado, somos mais vivos, mais livres e mais conscientes.
Aqui está a vida.

A Terra, portanto, é nada mais que
estação, escola, temporária prisão,
rio onde vamos, repetidamente, enquanto ainda precisamos,
lavar-nos de nossos erros e vícios,
aprender a amar, a limpar e semear o bem nos corações.

Não chorai pelos mortos nesse dia que atribuís aos mortos.
Não há morte.
O Universo é onda, movimento, fluxo constante,
eternidade,
nada está parado, estagnado, em desuso ou abandonado.

Chorai, sim, pelos que ainda vivem sem se dar do conta do amor,
lei universal da qual ninguém pode fugir.

Pode-se dizer que viver sem amor,
seja na Terra ou em qualquer outro lugar,
estando encarnado ou desencarnado,
é a única experiência de morte que existe.
A ignorância, o ódio, o orgulho e o egoísmo fazem de nós árvores secas, ervas daninhas, ou mesmo uma grande porção de terra ociosa, abandonada, preguiçosa.

Amar é crescer, movimentar-se, libertar-se,
auxiliar a Providência em seus desígnios
e tornar-se, pouco a pouco,
merecedor da Felicidade a que todos estamos destinados.

Lembrai do que vos disse São Francisco,
espírito humilde, desapegado e amigo:
''Morrer é viver para a vida eterna''.

Não chorai, não chorai.
E sobretudo não temais a morte.
Morrer só é sinônimo de sofrer quando chegamos aqui,
do lado da Vida, na Terra do Espírito,
de mãos vazias,
sem obras, com as sementes todas desperdiçadas
e nenhum jardim semeado.
É então que temos de retornar
e mais do que morrer, mais do que o corpo físico perder, dói ao espírito ter de na Terra novamente nascer.

Portanto, aproveitai o tempo,
não desperdiçai a vossa encarnação,
aprendei o quanto antes essa lição
e as dores se dissiparão,
exercitai o perdão, a compaixão,
não deixais de dividir o pão
e sobretudo de amar, de amar como amas a ti
o teu irmão.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Trecho de ''Teleny, ou o reverso da medalha''

(...)


     E tomando  as flores de sua lapela,  ele as pôs na minha apenas com uma das mãos, ao mesmo tempo em que passava seu braço esquerdo em torno da minha cintura e me apertava com com força, pressionando-me contra seu corpo inteiro por alguns segundos. Esse curto intervalo pareceu-me uma eternidade. 
     Pude sentir seu hálito quente e ofegante sobre meus lábios. Embaixo, nossos joelhos se tocaram, e senti algo duro comprimir-se e movimentar-se de encontro às minhas coxas. 
     Minha emoção naquele momento era tal que mal podia ficar de pé; por um momento pensei que ele fosse beijar-me — mais do que isso, os pêlos crespos do seu bigode roçavam ligeiramente os meus lábios, produzindo a mais deliciosa das sensações. Porém, ele apenas olhou no fundo dos meus olhos com um fascínio demoníaco.
     Senti o fogo do seu olhar mergulhar profundamente no meu peito, e muito mais abaixo. Meu sangue começou a ferver e borbulhar como um fluido em ebulição, e senti meu... (o que os italianos chamam de “passarinho”, e representavam como um querubim alado) lutar contra a sua prisão, erguer sua cabeça, abrir seus minúsculos lábios e novamente expelir uma ou duas gotas daquele fluido viscoso gerador da vida. 
     Mas aquelas poucas lágrimas — longe de serem um bálsamo atenuante — pareciam gotas de um líquido cáustico, queimando-me e produzindo uma forte e insuportável irritação.
    Eu me sentia torturado. Minha mente era um inferno. Meu corpo estava em chamas.
     Bem nesse momento ele soltou seu braço de minha cintura, e este caiu inerte com seu próprio peso, como o de um homem adormecido.
— Você acha que sou louco? — disse ele. Depois, sem esperar uma resposta: — Mas quem é são e quem é louco? Quem é virtuoso e quem é pervertido neste nosso mundo? Você sabe? Eu não.
     A lembrança de meu pai me veio à mente e perguntei a mim mesmo, trêmulo, se meu senso também estaria me deixando.
     Houve uma pausa. Nenhum de nós falou por algum tempo. Ele havia entrelaçado seus dedos com os meus, e caminhamos por alguns momentos em silêncio.
     Todos os vasos sanguíneos do meu membro ainda estavam fortemente distendidos e seus nervos rígidos, os dutos espermáticos cheios a ponto de transbordar; portanto, com a ereção persistindo, senti uma dor surda se espalhar pelos órgãos reprodutores e suas proximidades, ao mesmo tempo em que o resto do meu corpo encontrava-se num estado de prostração, e ainda assim — apesar da dor e do langor —, era um sentimento muito prazeroso caminhar calmamente com nossas mãos entrelaçadas, sua cabeça quase pousada no meu ombro.
 — Quando foi que você sentiu pela primeira vez os meus olhos nos seus? — ele me perguntou, num tom baixo, depois de algum tempo.
— Quando você subiu ao palco pela primeira vez. 
— Exatamente; então nossos olhares se encontraram, e depois estabeleceu-se uma corrente entre nós, como uma faísca elétrica percorrendo um fio condutor, não foi? 
— Sim, uma corrente ininterrupta. 
— Mas você realmente me sentiu antes que eu me retirasse, não é verdade?
     Como única resposta, pressionei seus dedos com força.

(...)

    A carne, o sangue, o cérebro, e aquela indefinível parte mais sutil dos nossos seres pareceram fundir-se num inefável abraço. 
    Um beijo é algo mais do que o primeiro contato sensual entre dois corpos; é a emanação de duas almas enamoradas. 
    Mas um beijo criminoso, ao qual se resiste e combate durante muito tempo, e é por esse motivo há muito há muito ansiado, está além disso; é tão luxuriante quanto o fruto proibido; é uma brasa incandescente sobre os lábios; uma marca a ferro quente que queima a fundo, e transforma o sangue em chumbo derretido ou mercúrio escaldante. 
    O beijo de Teleny era realmente galvânico, pois eu podia sentir seu sabor até em meu palato. Era necessário um juramento, quando já havíamos nos dado tal beijo? Um juramento é uma promessa de boca para fora, que com frequência pode ser, e é, esquecida. Um beijo como aquele acompanha-nos até a sepultura. 
    Enquanto nossos lábios estavam unidos, sua mão lentamente, imperceptivelmente, desabotoou minhas calças, e sorrateiramente deslizou para dentro da abertura, pondo cada obstáculo em seu caminho instintivamente de lado  até tomar posse do meu falo duro, teso e dolorido, que ardia como o carvão em combustão.

(...) 

WILDE, O. Teleny, ou o reverso da medalha. São Paulo: Hedra, 2008. *

* Este livro foi publicado anonimamente em 1893, na Inglaterra, e hoje se sabe que se trata de um esforço conjunto de amigos de Oscar Wilde. O autor de ''O Retrato de Dorian Gray'' teria, na verdade, sugerido alguns episódios e dado a forma final ao texto.


DEUS

procuro, nesta noite incauta, eu procuro,
a busca talvez mais óbvia,
mas também mais difícil, demoradamente compreendida pelos espíritos,
procuro por Deus nesta noite,
sim, Deus, a face-luz do Universo, da Vida,
o começo, o meio, a eternidade,
a paz, 
a felicidade,
procuro por ele, por Deus, 
que pode, o único que pode, 
me dar paz, pôr fim aos fantasmas todos que ainda teço,
mas é uma busca difícil, como disse, 
somos nós quem temos de caminhar até ele,
que não é um homem, que não é uma mulher,
que é algo para-além da nossa compreensão atual,
ele, o Amor-puro, a Verdade, a Justiça,
o Todo, a Mãe, o Pai,  a causa de todas as coisas,
 aquele que nos criou com todo o seu amor
e que de nós espera o mesmo,
espera que, aos poucos,
aprendamos a ser também amor,
a dar amor, a ensinar amor,
a viver, pensar, sentir
amor,
a pulsar amor,
a distribuir, a mostrar, a orientar os outros a chegarem lá,
no amor universal,
na liberdade verdadeira e na felicidade plena,

sim,
amar, amar, amar,
dividir o pão,
demolir o orgulho, rasgar as vaidades vis,
matar de todo o egoísmo,
perdoar,
mágoas cindir,
amar, ser leve, manso,
aprender a dar a outra face,
e dedicar ao outro o amor que dedicamos a nós próprios,
abandonar, por fim, o pobre e tolo Narciso
e ser grande, belo e humilde como o Cristo. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

MAS ERA PRIMAVERA (conto)

   Mas era primavera. E chovia, como chovia, era primavera e chovia como se fosse outono, ou inverno. Os vidros frouxos da janela balançavam, tremiam-se, debatiam-se, Fernando estava incomodado. ''Droga de vento, droga de vida'', disse para si mesmo depois de apagar o cigarro num vaso onde uma ressequida e insistente muda de violeta tentava sobreviver. Fechou a janela, sentou-se no sofá, não ligou a TV, preferiu ficar olhando para a parede. Os seus olhos se detiveram numa velha tapeçaria, dependurada na sala do seu apartamento, onde se via reproduzida uma cena bela e familiar: sob uma grande árvore, um frondoso canhoeiro, em meio a savana, um casal de leões descansava. Ela, apoiada nas duas patas, olhava para frente, atenta a qualquer movimento estranho na relva; um coelho, um veado, um antílope. Ele, o rei da selva, dorme, esticado e despreocupado, os olhos fechados, confiante de que sua fêmea achará facilmente uma presa, o alimento do dia. Aquela tapeçaria pertencera à sua mãe, Fernando a via desde criança, mas só agora se sentira de fato incomodado com ela. Levantou-se, foi até a tapeçaria, olhou mais uma vez para o casal de felinos, tão tranquilos, tão naturais, felizes talvez.. ''Ok, vocês venceram, vou deixá-los aí, por enquanto, por enquanto''.
   Mas a chuva, sim, a chuva. Fernando voltou a sentir raiva da chuva. Há duas semanas que chovia assim, sem parar. Ele, que trabalhava em casa e morava num confortável apartamento de um confortável edifício, localizado num confortável bairro, além da privação dos passeios que costumava fazer pelo parque durantes as manhãs, não podia dizer que a chuva prejudicava, em grande escala, a sua vida. Mas tinha de pôr a culpa em alguma coisa, tinha de ter algo para amaldiçoar e do que reclamar. Se não ele explodiria. Sejamos complacentes com o rapaz, ele está sofrendo. Sofrendo de amor, é preciso dizer ainda.
   ''Eu te odeio", disse ele para um homem cujo crime único era o de não amá-lo, quer dizer, o de ter deixado de amá-lo. Estava agora em frente ao seu computador. Torturava-se: na tela do computador o rosto do criminoso, sorridente e feliz, olhando-o com doçura. Apertou o botão direito do mouse, outra foto aparecera: os dois abraçados e felizes, no zoológico. Lembrava bem daquele dia, foi há três anos, no seu aniversário. Atrás deles, uma gigantesca girafa, melancólica, parada, olhando para o nada. Aquela girafa não parecia inocente, parecia triste, parecia entendiada, parecia conhecer um pouco da vida, da solidão que é a vida. E os dois ali sorrindo, abraçados diante dela, tão tolos, tão inocentes.
   ''Chega. Não posso mais fazer isso comigo'', fechou a tela do computador, levantou-se como um animal acuado e feroz. Foi até a janela, de novo. Chovia ainda, mas agora um pouco mais fraco. Fernando decidiu-se. Não ficaria em casa como um animal enjaulado. Ia levar seu ódio para passear. Pegou o seu casaco marrom no cabide, vestiu suas botas, bateu a porta e saiu.
   Então se pôs a caminhar pelos quarteirões da cidade, os passos largos, atravessava as ruas e nem sequer reparava nos semáforos. Queria desafiar a morte, ser violento. Teve sorte, chegou vivo e ofegante numa praça larga, cercada por árvores e com uma velha figueira no centro. A chuva ficara ainda mais fraca, as pessoas caminhavam com menos pressa, olhavam para os lados, evitando as poças. Fernando seguia com raiva, olhando para o chão, as mãos fechadas nos bolsos. ''Eu te odeio, eu te odeio'', dizia para si quando via um homem parecido com aquele que amava, atravessando a rua ou parado a fumar numa esquina qualquer. 
   Mas de repente Fernando parou, olhou em volta e reparou que havia um certo movimento no centro da praça, um pequeno grupo de pessoas amontoava-se ali, ''O que está a se passar?''. A raiva diminuiu, seus tentáculos brancos de espuma perderam espessura, ele a encabelou com curiosidade.
   Quando chegou perto o bastante, Fernando entendeu o que se passava. As pessoas haviam parado para ver e ouvir três velhinhas que cantavam na praça, sentadas em banquinhos de madeira, os rostinhos simpáticos e as vozes não se podia dizer que não eram agradáveis. Fernando relaxou, sentiu o corpo descontrair-se, tirou as mãos dos bolsos. Ficou a ouvir aquela singela cantoria. Certa paz enfim.


Ratoeira bem cantada
faz chorar, paz padecer;
também faz um triste amante;
o seu amor esquecer. 


   Algo dentro dele se desestabilizava, modificava-se, algo acabava. Quando ele colocou uma nota de dois reais na pequena caixinha de madeira que havia perto dos pés de uma das velhinhas, um animal negro e grande foi levado pela enxurrada, desapareceu, afogou-se, e ninguém ouviu os seus mugidos. E depois a chuva parou, não voltou mais naquele dia. O céu continuou cheio de nuvens e cinzento, a frente fria continuaria sobre a cidade, mas dava uma trégua para que os mortais pudessem respirar um pouco, enterrar seus mortos, esperar o sol e a primavera que, mesmo atrasada, haveria de vir, haveria. 


***

Charles Berndt

19/10/2015

18/10/2015

o que trazem os dias nublados

além desta calma
utópica
plena mansidão
que olha o dia complacentemente
como se fosse o último?


o que trazem os dias nublados
além desta santa
saudade
imaculada e profana
do teu corpo de outrora?

o que trazem os dias nublados
além desta desnuda
vontade
dama sem piedade
de pura introspecção?

o que trazem os dias que se vestem de cinza,
então?

adiantará eu me vestir de vermelho
numa última desesperada tentativa
de dizer que ainda há vida
e paixão, sim, paixão e viço
no meu ser tão sem razão?

adiantará dizer assim
que ainda há lucidez
nos meus passos de lentidão
em direção a janela,
donde olho a avenida e não vejo ninguém,
não há ninguém, não vem ninguém,
tudo é silêncio, libido e pardacento,
devassidão,
um palavrão, um olhar de desdém.

27/09/2015

e vou caminhando triste
pulando as poças d'água
em vão
as minhas botas já estão molhadas


e vou pensando na vida
vendo na água o meu rosto, o teu rosto
aquele dia em que atravessei alegre a ponte de Santa Clara pra te encontrar
aquele abraço que não foi suficiente pra me despedir

e vais passando então diante de mim
fugidio
como uma ave branca
fantasma
pulando as poças, perdendo-te na névoa
rindo diabolicamente
ganhando voo
olhando o Iphone sem dar por mim

e vou segurando o guarda-chuva
sem força e sem vontade
completamente encharcado
compondo versos na mente
fingindo que a dor não existe
que não há saudade e que faz sol
não, não está chovendo
eu não estou chorando
e tu nunca cruzaste a avenida para me beijar

terça-feira, 13 de outubro de 2015

CAFÉ AROMA (ou uma pequena viagem qualquer, essas de fim de dia)

sento no Café Aroma, que não tem nada de especial, é só mais um café
desses tantos que há pelo centro de Floripa

talvez eu esteja sendo injusto, há, sim, algo de especial no Café Aroma,
um ''não sei quê'' de nostalgia, que me provoca uma saudade, uma melancolia,
lembro das então pastelarias
da baixa de Coimbra

sento-me perto da porta,
que é pra ver quem passa na velha e antiquada João Pinto,
rua a pintar todos dias um outro tempo, uma Floripa cada vez mais distante,
perdida e esquecida

pergunto se tem pastel de natas e o garçom olha-me como se tivesse feito
uma pergunta n'outra língua,
explico que pastel de natas é o mesmo que pastel de belém,
ele sorri mais contente, mas fecha a cara e diz,
Não, senhor, às vezes temos, mas hoje não,
Certo, dá-me, então, um pedaço daquela torta de limão
e uma média com leite, se faz favor

é estranho,
estranho ser estrangeiro na própria terra,
ser estrangeiro no meu país,
desde que voltei da minha viagem não fui capaz de me reencontrar,
e levo, todos os dias, na alma esse modo melancólico propriamente luso de ser,
olhar a vida, tomar café, ler o jornal e abrir os livros

o tempo, este aqui da João Pinto,
das ruas da parte velha da cidade, esta que ainda guarda
o ar, o aroma, de um passado que tem
cada vez mais a aparência dum fantasma,
é outro, outro tempo,
as pessoas caminham menos apressadas e não andam segurando smartphones,
talvez nem sintam azias, pós-modernas azias

gosto particularmente dos sebos, de entrar nesses lugares poeirentos,
cheios de livros velhos e revistas inúteis, e reparar na cara de quem ali
passeia, cruza os corredores a pensar na vida, nas angústias de cada dia,
a procurar pequenos gozos, singelas doses para a alma de ambrosia

o café já está frio, bebo-o mesmo assim,
afinal dizem que estamos em crise, é preciso economizar até mesmo nos cafezinhos,
sobre a mesa está o meu livro do Garrett, aquele das Viagens,
Viagens na minha terra

o garçom não conhece Garrett, repara no meu livro curioso, mas com olhar decepcionado,
de certo esperava que eu estivesse a ler outra coisa,
reparo no modo como ele se escora no balcão, o tédio que tem no olhar,
as coxas grossas e os pêlos no peito que aparecem por conta da camisa de gola cavada,
eu te levaria para casa, petit garçon,
namoraríamos durante dois anos e viria te esperar todas as tardes, sentaria sorridente,
tu farias gracinhas e eu ficaria reparando no modo como rebolas e te insinuas
para mim

suspiro fundo, percebo que o tempo está a se fechar,
Vem chuva aí, diz um senhor que está sentado do lado de fora,
mais para si que para qualquer outro,
somos todos assim, uns solitários, vivemos constantes monólogos

um casal entra no café de mãos dadas, sorriem
como se o amor não acabasse e eles para sempre fossem se amar,
doce ingenuidade, bastará que numa noite de verão, ela cansada,
ele, cheio de libido e de machismo, se enfeze com um não,
Não, não vamos transar hoje, querido, tenho dor de cabeça,
e pronto, terá sido em vão os juramentos feitos ao padre e ao escrivão

tudo se finda,
aceitemos, os corpos apodrecem, as revoluções tornam-se autoritarismos,
o amor vai ficando pra depois,
as viagens, como todas, terminam,
como esta pequena e despretensiosa viagem
que fiz, sentado nesta mesa de café, num dia qualquer,
lembrando, pensando, querendo escrever esses versos
que só serão escritos horas depois, na minha casa,
e já não serão os versos certos, os que pensei,
serão outra coisa, outra viagem,

aqui o mar, mental, acaba e a terra, que é corpo, fica.

(C. Berndt - 13.10.2015)

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

IV

Adormece o teu corpo com a música da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quere ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?


(Cecília Meireles em ''Cânticos'')

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

pesares

o mundo pesa,
às vezes sinto-o pesar,
e como sou bobo,
peso junto dele.

e vamos os dois,  pesados,
tristes muitas vezes,
o mundo e eu,
vivendo, morrendo e renascendo todos os dias,
em fogo, em água,
lágrima e amor,
há amor, ainda bem.

sábado, 26 de setembro de 2015

O poeta é (está) só.
Esse é o seu segredo, o seu fado, a sua vida, a sua morte.
Ser só, num mundo em que todos andam juntos e não estão em lado algum.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

procuro
nesta noite incauta
fria
de margaridas congeladas no jardim
uma canção, um poema, uma palavra


um gesto
um passo
uma sílaba ou melodia
que me devolva o sossego
a paz que há uns dias perdi


folheio
livros e papéis velhos
há de haver algo aqui, um verso
uma lembrança, uma saudade
qualquer
sedativo


nenhuma das vozes habituais
pode
me consolar
nem Camões nem Pessoa nem Sophia
nem Florbela, minha amargura preferida


reviro-me
tento me despir dessa pele de gelo
e medo
que cobre meus pelos
uma dor


o inverno nos enganou
agosto foi quente e doce
muitos dias de sol e mudas de amor-perfeito
plantadas no vaso frágil da minha vida


mas veio setembro
e como são tempos demoníacos
tudo mudou e a luz da ternura se desacendeu


partiste
cometa de cauda longa
rastro luminoso
rota difusa
e corpo dissonante
suave serpente de libido sibilando prazer


e cá fiquei então
em pedacinhos
a tomar chá
sozinho
amando novamente como nunca quis


procuro
no silêncio robusto
desta noite invernal
os teus olhos o teu corpo o teu cheiro
frio é o inferno sem ti


estes versos
que são como vômito
escarro
ou pranto magoado de orgulho
não me consolam
nem fecham a ferida que abriste


sangrarei por muitos séculos
ainda
até que no maledicente céu das vivências
nasça outro cometa
e o meu corpo gelado e inerte acostumado
aos ventos e à ausência
desperte
em lava e gemidos
contente.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

IL PLEURE DANS MON COEUR (Paul Verlaine)

Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville;
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur?

Ô bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits!
Pour un coeur qui s'ennuie,
Ô le chant de la pluie!


Il pleure sans raison
Dans ce coeur qui s'écoeure.
Quoi ! nulle trahison?
Ce deuil est sans raison.

C'est bien la pire peine
De ne savoir pourquoi
Sans amour et sans haine
Mon coeur a tant de peine!

domingo, 30 de agosto de 2015

manhã de sol amena
e meiga
é teu rosto, o primeiro que vejo
quando abro os olhos

mar liso, ondulante
e lascivamente inocente
é teu corpo tão entregue a mim, seminu
e adormecido

nuvens brancas de paz e reconciliação
são os nossos lençóis
embrulhados
entre nossas pernas, sinto os teus pés, como são lisos

Primavera que chega e ilumina
o quarto com luzes descansadas
é o amor novo que me trouxeste

levanto-me devagar, o beijo demorado na tua boca
é fôlego para o meu dia

fica a dormir, querido,
quando for noite eu trarei lírios e te despirei
como quem limpa um frágil aquário

dentro de ti, em ti, nadarei
entre corais e medusas pacíficas,
teus pelos se arrepiam e eu estou quase lá

adormecidos
vamos andar de barco no grande rio do espírito,
tu tens os remos,
leva-me ao Mar.

sábado, 29 de agosto de 2015

será que amar
é mergulhar de novo
profundo e delicadamente
no verde esmeraldino
do Atlântico
que se reapresenta a mim
através desse par de olhos novos
que encontrei em dias invernais?


será que amar
é mesmo possível
como antes
e ver as gaivotas poisando na praia
e caminhar catando conchas
e olhar as tuas sardas como se fossem
a Via Láctea
e beijar teu dorso, apertar tuas pernas,
sentir teu corpo leve se abrir para mim em prazer revelado
e sincero?


será amar
ou é o mar
do desejo
que, por sede, sempre nos está a empurrar
para a frente, para alguém,
em suas marolas há corpos de gente,
o meu e o teu, enrolados agora
em lençóis brancos acetinados
numa quinta-feira à noite, nus sobre a cama ainda fria,
carentes de quentura, prontos para a guerra?

será?

domingo, 23 de agosto de 2015

Nuit nue

O, nuit nue,
Te regard avec mes yeux
viciés e ma visage
ennuyée


O, nuit sombrie,
Te veux avec mon âme
pleine de songe
que vibre encore

O, nuit irrémédiable,
te vois triste
mais je t'aime
même ainsi

O, nuit sans fin,
sans malheur
sans brille
calme et langueureuse

O, nuit longue,
que le vent t'insuffle
sa magie unique
dans son rugir

-- Hamilton Alves em ''O cão noturno''.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Os lírios brancos.

Os lírios brancos que vês nos campos,
Nos prados amarelados do Alentejo,
Onde vais aliviar teu espírito desenfreado,
Sou eu, o meu corpo,
A delicadeza que sou, a paz que vislumbro,
O amor que sinto por ti,
A morte que não é nada senão brisa que transpassa
E nos separa momentaneamente.








terça-feira, 11 de agosto de 2015

MIRAGEM



aves de rapina num céu azul celeste
o sol forte mas ameno do solstício de inverno
iluminando a crosta sul da Terra

e eu
caminhante eterno
pernas que se afundam na areia fina
das dunas brancas etéreas
que se estendem por boa parte de Garopaba
sinto-me perdido, perdido no deserto

vertigem
as minhas pernas falseiam, a luz se torna opaca
miragens, imagens turvas da mente, tempestade de areia
as coisas giram

volto a mim
já não estou no sul da pátria do cruzeiro
o mar se foi
só vejo o Nilo

a minha pele já não é branca
mas morena, como o cobre
os meus olhos agora são estreitos e as pupilas negras, felinas
falo uma língua que não existe mais e
digo com força e orgulho:
KEMET!

escravos persas constroem um novo templo, lapidam paredes
o faraó está ao meu lado, digo-lhe nessa língua estranha
palavras que significam:

''Filho de Hórus, mal foi revelado, Atón já tem inimigos!
Seth, o deus escuro, aquele que ainda habita os corações humanos,
não descansa!''

O faraó não me ouve, está longe, em transe
o disco solar fala consigo
no norte, no entanto, falcões, os falcões de Amon!

aves de rapina num céu azul celeste
meus olhos se fecham como se pesassem o mundo
o entardecer se aproxima
sinto força novamente em minhas pernas, voltarei para casa

o meu coração flutua então mais leve
desço o caminho que me levou às dunas
o mar está calmo, quase sem ondas
penso: 

viajar no tempo nos dá ânimo
um certo sentimento de liberdade, asas
como as têm as aves
que voam por sobre a terra, por sobre as águas
do Nilo, do Atlântico...

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

GLÁDIO - Fernando Pessoa


A Alberto Da Cunha Dias


Deu-me Deus o Seu Gládio, porque eu faça
A Sua santa guerra.
Sagrou-me Seu em génio e em desgraça
As horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e dourou‑me
A fronte com o olhar:
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer-justiça são Seu Nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do Gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha Alma!



Orpheu, nº 3. (Lisboa: 1916) (Preparação do texto, introdução e cronologia de Arnaldo Saraiva.) Lisboa: Ática, 1984. - 35.

domingo, 2 de agosto de 2015

ÀS VOLTAS

às voltas

espirais sobre o teu corpo-fantasma

avenidas desertas e um cão noturno
a latir
música para meus ouvidos


sinal vermelho ou sinal verde
não importa, não há ninguém nesta via

às voltas sobre mim

palavra encanto
que ainda reverbera
feitiço
ou porta sem chave para ser fechada

espera

a mentira é uma inexatidão, Ricardo Reis, eu sei

às voltas sobre um cadáver que não existe, abutre

braço amputado que coça, formiga,
que se ergue para te tocar

fadiga.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

NOITE DE CHUVA - Florbela Espanca.




Chove na noite fria da ilha da magia. Oiço, dentro de mim, uma voz, quente e delicada, velha conhecida, amiga minha e das palavras:


NOITE DE CHUVA

Chuva... Que gotas grossas!... Vem ouvir:
Uma... duas... mais outra que desceu...
É Viviana, é Melusina a rir,
São rosas brancas dum rosal do céu...


Os lilases deixaram-se dormir...
Nem um frémito... a terra emudeceu...
Amor! Vem ver estrelas a cair:
Uma... duas... mais outra que desceu...

Fala baixo, juntinho ao meu ouvido,
Que essa fala de amor seja um gemido,
Um murmúrio, um soluço, um ai desfeito...

Ah, deixa à noite o seu encanto triste!
E a mim... o teu amor que mal existe,
Chuva a cair na noite do meu peito!

Florbela Espanca, em ''Reliquiae'', 1934

sábado, 11 de julho de 2015

O DESEJADO

Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado!


Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo,
Mas já no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucaristia Nova.

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Gral!

(Fernando Pessoa em ''Mensagem'')



segunda-feira, 6 de julho de 2015

e na brancura seca desta rua
desta névoa sufocante que sou eu
respirar


respirar


respirar


respir...ar


ar
que me falta
ar que não sou

domingo, 5 de julho de 2015

Mundo Azul




há em meus olhos tristes
uma chama azul
lâmpada
gás
éter
algo, algo
um sentimento, um jeito, um gesto
que diz que não sou deste mundo

em meus olhos tristes jaz o meu segredo
o caminho de um planeta luminoso e feliz perdido por mim e por meus olhos
numa via distante do Universo

sou um exilado, um rebelado

mas ainda oiço os cantos dos meus irmãos
seres dourados, brancos como a neve, mantos azuis, as orelhas pontudas,
as mãos delicadas e as vozes mais doces e mais belas que já ouvi

um dia voltarei para lá, para a minha Ítaca
o meu Mundo Azul perdido
e ainda não esquecido

a Terra amada de hoje, bela e menos azul,  tem me dado as justas asas
que antes tanto reneguei

há em meus olhos
uma chama azul
apontando para o Sul
revelando a minha sede de transformação
o Amor finalmente começa penetrar minh'alma desterrada

voltarei para casa, há quem lá espere por mim,
uma pequena família amada

o meu peito então nesse dia
 irá refletir
o Sol, o meu Sol, aquele Sol
estrela Suprema Azul, delicada Sirius
de quem tanto sinto falta, de sua luz
que preenche a vida dos angélicos homens do Sul

voltarei, feliz, irmãos
finalmente transmutado
depois de tanto ser proscrito, voltarei
a aura azul-lilás,  nobre, bondoso e luminoso espírito


Breve reflexão noturna acerca da lei de atração, do amor e da evolução espiritual.

''O intercâmbio de mentes, emoções e aspirações é Lei da Vida. Conforme padrão vibratório, cada onda emitida encontra ressonância em campo equivalente, estabelecendo-se a sintonia ou identificação.
Em razão disso,cada ser humano respira o clima espiritual onde situa os anseios do sentimento e as metas da inteligência. (...)''

Trecho retirado do livro ''Lições para a Felicidade'', de Dilvado Franco, ditado pelo espírito Joanna de Angelis.

O pensamento é simples: ''Cada um colhe o que planta. Cada um vive no jardim ou no deserto que cultiva''.

Todavia, é prudente desenvolver melhor este pensamento:

 Os semelhantes se atraem. O triste traz para perto de si outros indivíduos tristes, o raivoso procura outros que compartilham da mesma raiva, o amoroso e bondoso se sente em paz e em harmonia ao lado de outros seres amorosos e bondosos, e assim é com todas almas. Temos perto de nós aqueles com os quais nos identificamos.
Da mesma forma, as nossas ações e também os nossos pensamentos constroem o mundo à nossa volta, isto é, a nossa vida e nosso estado de espírito. O homem que alimenta sentimentos nefastos de ódio, raiva, vingança, egoísmo, viverá, pois, sob as consequências desses sentimentos, em um estado de espírito perturbador, tendo ao seu redor outros indivíduos que partilham dessa mesma conduta. O homem que, por outro lado, busca a paz, a concórdia e pratica o amor e a caridade, isto é, aquele que verdadeiramente segue a lei máxima que rege o universo (''Amarás o teu próximo como a ti mesmo''), respirará um clima doce de felicidade e harmonia - será bem-vindo nos redutos habitados pelos espíritos que já alcançaram alguma luz e sabedoria na estrada da reencarnação, imposta por Deus a todos os seres.

Vale, por fim, retomar algo que foi dito por Jesus, sábio espírito que encarnou-se na Terra para nos ensinar o Amor:


Vinde a mim, todos os que andam em sofrimento e vos achais carregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. (Mateus, XI: 28-30)


Aquele, pois, que se esforça para vencer o lado primitivo e animal que ainda existe nós, jovens espíritos recém-iniciados na caminhada evolutiva rumo à eternidade, aquele que busca amar como Jesus amou - sem ódio, preconceito, individualismo, arrogância, orgulho e vaidade - encontrará, pois, um mundo de luz e de alegrias que lhe estenderá os braços e lhe oferecerá a liberdade. 


O amor é o mais importante, independentemente de religião. O amor é que nos pode libertar das dores, dos sofrimentos, das guerras, do véu do egoísmo e do orgulho que tanto nos cega e aprisiona. O amor é a primeira grande tarefa a ser aprendida por todos os espíritos, é o que nos aproxima do Criador - o Criador, Deus, a Deusa, Grande Força, Providência, a Inteligência Suprema, etc. Não importa como denominamos, através dos meios incompletos das nossas línguas, esse Ser. O que realmente importa é compreender que ele de fato existe, na medida em que todo efeito possui uma causa. Tudo que há no Universo e não é obra humana é obra de Deus. Estamos cercados de provas físicas - basta olhar para o céu, para o chão, para os nossos corpos, etc. - de que existe uma Inteligência Suprema, ainda desconhecida por nós em suas singularidades, que criou o infinito universo em que habitamos. Deus, portanto, é a causa primeira de todas as coisas, infinitamente justo e bom. O amor que ele exige de nós é o amor que nos dedica - amor que dedica a todos, sem parcialidade ou privilégios.


''Ama e te libertarás da gaiola de expiações e provas que é a Terra, mundo provisório, necessário aos primeiros passos dos filhos de Deus. Ama, aprende a amar! Quando isso acontecer, novos mundos e novos ensinamentos abrir-se-ão, então, para ti, filho amado''


****

Sugestões de Leituras:


- Capítulo III, IV e XI do livro ''O Evangelho Segundo o Espiritismo''
- Capítulo 1 e 2 da primeira parte do ''Livro dos Espíritos'' e capítulo 11 da terceira parte do mesmo livro.
- ''Lições para a Felicidade'' - Divaldo Pereira Franco, pelo espírito Joanna de Ângelis
- ''Ação e Reação'' - Francisco Cândido Xavier, pelo espírito Emmanuel
- ''Violetas na janela'' - Vera Lúcia W. de Carvalho, pelo espírito Patrícia

terça-feira, 30 de junho de 2015

Floripa, 17 de junho de 2015. Noite, madrugada, a janela aberta, eu insonioso.

como é azul e escuro e cheio
de estrelas
o céu no inverno

vejo claramente os braços leitosos da Via-láctea,
gigantes e flutuantes no espaço

tenho mente imaginativa e pensamentos lúbricos
frequentemente
imagino de qual deus terá nascido nossa galáxia,
sendo ela uma via de esperma, não de leite materno

e fico a pensar no lugar
que estamos, no lugar
que a Terra fica dentro dessa galáxia

li em algum lugar que o sistema solar,
o nosso,
fica no finzinho do fim
da Via-láctea, num dos últimos braços ou dedos mindinhos, vivemos,
portanto, num subúrbio sideral

um dia, senhores, um dia
ainda me vou embora, arrancarei as roupas do varal,
e partirei sem despedidas, vou viver no centro galáctico,
vou ser importante,
vou-me embora,
vou-me embora para Alcíone.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

RECADO

cortina branca esvoaçante, o vento
a revelar a esconder
teu corpo,
suspiros, o meu canto é uma coisa truncada
eu sei
lágrimas e gotas, dedo ferido
sal e esperma, recebeste minha carta
já devias ter ido
então por que os teus olhos estão cobertos, o travesseiro limpo
a esconder teu rosto
sabes de tudo, eu te falei da distância do mar, do caminho de espinhos
então por que o espanto e a cara de medo
se ainda ontem me disseste pr'a seguir sem a mão no freio
a cigana da praça leu minha mão, esse silêncio é mentira
a borra do teu café diz que sofres de ansiedade todas as manhãs
e o cão do vizinho te perturba porque lembra meu uivo
minha ira
tenho medo de voltar e não existires mais
palavras vagas, espuma, um eco
cortinas brancas sujas de esperma,
isso foi um grito
ou um gemido, não me responda
achas que gosto das respostas, por certo



p.s.: essa gralha que te leva meu recado é esperta, tenhas cuidado, quando não come palavras, cisma em tornar difuso o que devia ser claro, ela teima em ser surrealista.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

DOS TEUS OLHOS

dos teus olhos
verdes indecifráveis
eu vejo o Mar

aquele que um dia atravessei,
o Mar das lúbricas vagas sobre o qual voei
mesmo sendo eu alguém com tão parcas asas,
o Ícaro de Floripa

mas eu vejo,
dos teus olhos eu vejo o Mar
que me levou ao meu destino, o caminho de cicutas,
Portugal de belas colinas e longos prados,
rapaz bonito, feito de terra e nuvem, por mim amado
até o último segundo

eles, os teus olhos, guri, trazem-me
um pouco
do que lá deixei,
um pedaço do meu corpo perdido
como anel no fundo do Mondego, um amor vivo
por acontecer,
uma flor roxa de mágoa,
uma estrela-marinha, uma pedra gigante,
uma saudade. o entardecer

dos teus olhos, carinho,
eu vejo,
vejo
o Mar

e vou de novo, devagarinho,
como quem dança,

a navegar, a navegar...

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Quem me leva os meus fantasmas? (Pedro Abrunhosa/ interpretação de Maria Bethânia)

Aquele era o tempo em que as mãos se fechavam
E nas noites brilhantes as palavras voavam
E eu via que o céu me nascia dos dedos
E a Ursa Maior eram ferros acesos
Marinheiros perdidos em portos distantes
Em bares escondidos em sonhos gigantes
E a cidade vazia da cor do asfalto
E alguém me pedia que cantasse mais alto


Quem me leva os meus fantasmas?

...


sexta-feira, 29 de maio de 2015

EURÍDICE

Orfeu hoje veio ter comigo, veio sem arpa, vestindo jeans e fumando um cigarro.
Sentou-se ao meu lado, suspirou fundo, olhou o céu, não leu nenhum dos seus versos. Eu pus minha mãe em sua coxa, a outra enlacei sua cintura, senti o cheiro de seu pescoço. Então, alguns minutos depois, eu disse, cheio de ternura:

- Diz-me, Orfeu, amigo, o que é que te angustia?

Ele tirou seus olhos castanhos de uma nuvem branca que seguia para o norte, jogou fora o cigarro, que caiu numa poça de lama, e disse-me sem me olhar nos olhos, como sempre faz:

- Passou. Estou em outra. Eurídice já era.

Demorei alguns segundos para processar a informação. Assustado, surpreso, sem compreender direito, respondi então:

- Céus. Achei que irias ao inferno para resgatá-la uma outra vez. O que houve? Cansaço?

- Não. Não vou mais. Não quero mais saber de ir ao Hades. Acho que você não entendeu. Eu disse que estou em outra.

- Em outra? Como assim, Orfeu?

Silêncio. Por alguns segundos eu vi o meu amigo se remexer no banco, afastar-se levemente de mim, a face branca tornou-se escarlate, acendeu outro cigarro.

- Eu... Eu..

Percebi que ele estava envergonhado, encabulado, que precisava me contar algo, algo importante e sério. Desta vez fui eu quem respirou fundo e procurou uma nuvem branca no céu que me ajudasse a pensar, pensar rápido. Veio, senti a epifania, a revelação, por um minuto quase adivinhei o que ele queria me contar:

- Estás apaixonado. Novamente. Tudo bem... Os tempos são outros. Quem é ela?

Desta vez, foi Orfeu quem me abraçou, pôs a mão sobre minha coxa, enlaçou minha cintura, respirou pausadamente e disse:

- Eurídice, a nova Eurídice, não é uma mulher. É um homem. É você.


A minha nuvem branca era uma ovelha rebelada, desafiava o vento, caminhava para o sul. Os meus olhos, temerosos, seguiram-na, tudo o que vi foi a boca de Orfeu. Ele compôs uma nova canção, nossas línguas dançaram.  


***

Charles Berndt 

terça-feira, 19 de maio de 2015

Vós sois a Luz do mundo!


A paz que tantas vezes nos falta
no mundo, nos rostos, nas ruas
pode ser encontrada onde menos procuramos,
dentro-fundo do peito,
onde o Infinito nos plantou uma semente
de sabedoria e progresso.


A paz
há-de ser alcançada, pouco a pouco,
por cada um e por todos,
quando o mundo for palco de boas semeaduras
e menos egoísmo.

Sentir-se triste?
Para quê?
Lembremo-nos, alguém já nos disse:

Vós sois a Luz do mundo!

**

Mais em: https://www.facebook.com/ajaneladosespiritas?ref=hl


quinta-feira, 14 de maio de 2015

É tempo, é hora... ( por Lúcio Heleno)

Nesse mundo,
não falta quem queira atirar mais uma pedra,
sempre aparecerá quem tenha mais uma palavra
de acusação, uma ofensa gratuita,
um sentimento ressentido, uma mágoa escondida...


Não falta, pois,
quem queira assoprar ainda mais
as brasas das fogueiras do mundo,
não falta quem se felicite com a dor alheia,
e pouco se lembre do que um dia disse o Nazareno:

Quando vestires a um maltrapido,
é a mim que estarás vestindo...

Não falta, nesse mundo de tantas provas
e duras expiações,
quem se ofenda facilmente,
quem do orgulho ferido e mimado
faça guerras,
e sobre a caridade e o perdão
nem mísera menção...

Se ao corpo de muitos falta pão,
a maioria morre sem amor...

Morremos, atravessamos o véu,
voltamos para casa,
muitas vezes igualmente pobres
(de obras)
ao momento em que descemos à carne....

Passamos pelo mundo,
tantas vezes,
quantas flores semeamos, quantos irmãos socorremos,
quantas lágrimas enxugadas, quanto bem espalhado,
quanto tempo aproveitado
(em prol do mundo e não somente de nós) ?

É tempo,
tempo de calar se for ofender,
escutar com humildade para aprender,
perdoar as falhas e erros dos outros
já que não raras vezes erramos
(se não no presente, mas no passado)
mais e de forma mais vergonhosa....

É tempo de apagar as fogueiras de incompreensão
com palavras líquidas de amor e esperança,
é tempo de derrubar montanhas de preconceitos,
e arar a terra (os corações) com humildade
e fraternidade....

É tempo de solidariedade,
de ensinar as crianças a amar em vez
de irrefletidamente (como fazem as feras) revidar o tapa...

É tempo, é hora
de esperarmos o novo mundo,
a Nova Era - ela está à porta!

É tempo de amar, amar,
amar...

É tempo de unir a fé e a razão,
de ver a terra e o céu dando-se as mãos,
tempo de sublimar a matéria com o espírito...

É tempo, é hora
de mudança,
regeneração,
compaixão,
recomeço,
novas energias, novos passos,
a luz de Deus (o Amor Supremo, que tão pouco ainda conhecemos)
a crescer em nós...

Todas as radiantes manhãs são precedidas pela sombra
rápida da madrugada,
é tempo, é hora...

Uma fresta, uma faixa
de luz e felicidade se acende no horizonte,
vivamos!

Vivamos com amor e sabedoria
a nossa eternidade!

EM PAZ (Auta de Souza)

Tanto roguei a paz consoladora,
Durante os meus amargos sofrimentos,
Elevando a Jesus meus pensamentos,
Que recebi a paz confortadora!

Sentindo- me feliz, ditosa agora,
Nessas paragens de deslumbramentos,
Onde terminam todos os tormentos
Que inundam de amargor a alma que chora.

Jesus! doce Jesus meigo e bondoso,
Quanto agradeço a paz que concedestes
Ao meu viver tristonho e doloroso!

E desse lindo oásis encantado,
Canto de luz dos páramos celestes,
Bendigo o vosso amor ilimitado!

(Poema de Auta de Souza retirado do livro ''Parnaso do Além-túmulo'', psicografado pelo médium Francisco Cândido Xavier)




quarta-feira, 29 de abril de 2015

O UIVO DO LOBO

o uivo

de um lobo
um lobo uivando
perto de mim


o uuuivo
de lobo
uuuivaando

uuuuuuuuivo

o uivo de um lobo lobo
lobo uivo de
um lobo

um lobo uiva perto de mim

do vidro gelado da janela
onde vejo meu rosto assustado
vejo, ao longe, nas sombras
um lobo

um lobo uivando
um lobo que uiva para a noite
para mim

o uivo de um lobo sozinho
sem grupo
ou alcateia
um lobo medroso
cauteloso

uuuuuuuuivo
uuuuuuuuivo

o uivo
de um lobo

o lobo que sou eu
sibilino
perturbador
solitário
lobo mal
maligno
cruel
passional
que uiva
uuuuiva
pra se sentir acompanhado, menos abandonado

o lobo que uiva para a noite
a lua
as sombras
a luz que se esquiva

o lobo branco negro prateado ou cinzento
feroz
que sou eu

os meus olhos castanhos caninos
reflectidos
no vidro gelado da janela

o lobo
que sou

que somos

um dos outros
o lobo

o lobo que some
mata
foge
escapa
diz
ama

o lobo que uiva
chama

uiva
uivo
uivos
uuuivo....

C. Berndt

quarta-feira, 25 de março de 2015

ÉS NEVOEIRO

Ó Portugal,
hoje és nevoeiro


És
nuvem de espuma
diante dos meus olhos opacos
num dia de outono

És o invisível,
o que não existe, a quimera
ou quiçá um amor impossível

És
a lembrança de estalos de beijos noturnos
em meus ouvidos tantas vezes surdos

És
a polpa de uma fruta doce e incomum
da qual nem sequer me lembro o nome

És
o perfume do pescoço fino
do homem que não esqueço

És
cortes feitos à unha na pele das minhas costas
no escuro de uma noite perversa

Ó memória,
tu és mesmo uma ave de rapina,
já lá vai o tempo
plainando sobre os múltiplos cadáveres
que saíram de mim
enquanto bebia vinho
e pensava poesia

Ó tempo,
quanto tempo
que estou longe de ti, Portugal,
tu que me és a alegoria mais suave
desse corpo amado
jamais esquecido
e nunca sepultado

Vigio-te, Portugal!
Cuido da nossa antiga cama de afetos,
os passeios calmos à beira do Mondego,
os temporais e os vinhos do Porto,
as tardes em que ansioso te esperei...

Cuido dos travesseiros
de penas, dores e saudades
para que tudo permaneça assim,
vivo
como um coração cheio de sangue,
nada pode perecer em modo estático,
a máquina do tempo não pode parar ainda,
a claraboia do quarto onde nos víamos ainda está aberta
para as estrelas!

Ó Portugal,
hoje és nevoeiro,
este que vem da praia
que caminha p'ra mim,
que revela redes, uma canoa baleeira
vinda flutuante d'alguma parte dos Açores

Nevoeiro
que traz cantos,
sereios,
encantos,
enterrados por mim na areia
como conchas
que me lembram teu rosto

Ó Portugal,
hoje és nevoeiro,
fantasma,
o sonho que melhor teci,
o verso mais perfeito que sem escrever
escrevi,
o amor que à força costurei
e que mais sofrimentos me deu
que sorrir

Pois,
sem que eu queira,
hoje – ainda – és
nevoeiro,
estranho segredo

Ó Portugal,
hoje és
nevoeiro, nevoeiro!

E eu
sou teu novo Encoberto!
Rei poeta
que numa outra vida foi guerreiro!

Esperas por mim – pelo meu regresso –
sem o saber

Quando nos unirmos, num beijo de fim,
saberemos que terá se cumprido
o nosso utópico, distante
telúrico
destino!

C. Berndt
21/08/2012

quarta-feira, 11 de março de 2015

EL REI SEBASTIÃO

nesses dias de Saudade,
em que olho as estrelas, bebo vinho,
oiço fado,

só uma coisa verdadeiramente me consola
e me dá, ao espírito, algum frescor:

olho pela janela e espero,
como nato lusitano,
espero vê-lo, revê-lo,
um dia,
o rei santo,
de cabelos castanhos e olhos aveludados,

surgir da noite, das ondas,
o Encoberto,
belo e angelical,
e sem medo atravessar o meu umbral,
abraçar-me a cintura
e com um beijo na boca
dizer-me que foi tudo um sonho,

''ainda estamos em Portugal''...


C. Berndt 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Arte Poética (Adília Lopes)

Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer

LA PAZ



La paz

deve ser a cidade mais bonita do mundo,
La paz, la paz

haverá paz en La Paz?

cuántos niños duermen en paz en La Paz?
cuántos
dormem
de barriga cheia,
sin hambre,

y con una madre besando su frente
todas las noches?

quantos meninos e meninas,
chicos y chicas
de olhos pretos azuis castanhados,
vão à escola
en La Paz?

Hay paz en La Paz?

La Paz,
se tiver paz,
deveria ser

la capital del mundo, el corazón de América,

donde vamos a vivir
todos en paz,

um dia.

(C. Berndt) 

sábado, 3 de janeiro de 2015

FLORES À IEMANJÁ

quem perde um amor
assim
passa a velar um morto

o amor posto
sobre a mesa das lembranças
margaridas frias poisadas
um rosto
que se perdeu
na névoa dos dias
das noites

quem perde amor
perde uma vida
e tem de renascer das cinzas
velando cada pétala de dor
pôr em seu colo
as devidas saudades
e nas palmas das mãos
como conchas
as lágrimas

e ir, depois,
ao mar
lançar coroas de flores à Iemanjá
quem tem um amor
assim
pr'a velar
que vá ao mar
pular as sete ondas
sorrir para as sereias
sem medo da noite
do silêncio
ou das bruxas que nos querem açoitar

as tuas flores se perderão nas ondas
estrelas-marinhas cairão a teus pés
são palavras
novas
dadas pelo mar

para a ele entregares
esta espera
este amor que ainda te faz chorar.