Orpheus, de Franz Stuck

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Arte Poética (Adília Lopes)

Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer

LA PAZ



La paz

deve ser a cidade mais bonita do mundo,
La paz, la paz

haverá paz en La Paz?

cuántos niños duermen en paz en La Paz?
cuántos
dormem
de barriga cheia,
sin hambre,

y con una madre besando su frente
todas las noches?

quantos meninos e meninas,
chicos y chicas
de olhos pretos azuis castanhados,
vão à escola
en La Paz?

Hay paz en La Paz?

La Paz,
se tiver paz,
deveria ser

la capital del mundo, el corazón de América,

donde vamos a vivir
todos en paz,

um dia.

(C. Berndt) 

sábado, 3 de janeiro de 2015

FLORES À IEMANJÁ

quem perde um amor
assim
passa a velar um morto

o amor posto
sobre a mesa das lembranças
margaridas frias poisadas
um rosto
que se perdeu
na névoa dos dias
das noites

quem perde amor
perde uma vida
e tem de renascer das cinzas
velando cada pétala de dor
pôr em seu colo
as devidas saudades
e nas palmas das mãos
como conchas
as lágrimas

e ir, depois,
ao mar
lançar coroas de flores à Iemanjá
quem tem um amor
assim
pr'a velar
que vá ao mar
pular as sete ondas
sorrir para as sereias
sem medo da noite
do silêncio
ou das bruxas que nos querem açoitar

as tuas flores se perderão nas ondas
estrelas-marinhas cairão a teus pés
são palavras
novas
dadas pelo mar

para a ele entregares
esta espera
este amor que ainda te faz chorar.