Orpheus, de Franz Stuck

sábado, 30 de maio de 2015

EURÍDICE

Orfeu hoje veio ter comigo, veio sem arpa, vestindo jeans e fumando um cigarro.
Sentou-se ao meu lado, suspirou fundo, olhou o céu, não leu nenhum dos seus versos. Eu pus minha mãe em sua coxa, a outra enlacei sua cintura, senti o cheiro de seu pescoço. Então, alguns minutos depois, eu disse, cheio de ternura:

- Diz-me, Orfeu, amigo, o que é que te angustia?

Ele tirou seus olhos castanhos de uma nuvem branca que seguia para o norte, jogou fora o cigarro, que caiu numa poça de lama, e disse-me sem me olhar nos olhos, como sempre faz:

- Passou. Estou em outra. Eurídice já era.

Demorei alguns segundos para processar a informação. Assustado, surpreso, sem compreender direito, respondi então:

- Céus. Achei que irias ao inferno para resgatá-la uma outra vez. O que houve? Cansaço?

- Não. Não vou mais. Não quero mais saber de ir ao Hades. Acho que você não entendeu. Eu disse que estou em outra.

- Em outra? Como assim, Orfeu?

Silêncio. Por alguns segundos eu vi o meu amigo se remexer no banco, afastar-se levemente de mim, a face branca tornou-se escarlate, acendeu outro cigarro.

- Eu... Eu..

Percebi que ele estava envergonhado, encabulado, que precisava me contar algo, algo importante e sério. Desta vez fui eu quem respirou fundo e procurou uma nuvem branca no céu que me ajudasse a pensar, pensar rápido. Veio, senti a epifania, a revelação, por um minuto quase adivinhei o que ele queria me contar:

- Estás apaixonado. Novamente. Tudo bem... Os tempos são outros. Quem é ela?

Desta vez, foi Orfeu quem me abraçou, pôs a mão sobre minha coxa, enlaçou minha cintura, respirou pausadamente e disse:

- Eurídice, a nova Eurídice, não é uma mulher. É um homem. É você.


A minha nuvem branca era uma ovelha rebelada, desafiava o vento, caminhava para o sul. Os meus olhos, temerosos, seguiram-na, tudo o que vi foi a boca de Orfeu. Ele compôs uma nova canção, nossas línguas dançaram.  


***

Charles Berndt 

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Vós sois a Luz do mundo!


A paz que tantas vezes nos falta
no mundo, nos rostos, nas ruas
pode ser encontrada onde menos procuramos,
dentro-fundo do peito,
onde o Infinito nos plantou uma semente
de sabedoria e progresso.


A paz
há-de ser alcançada, pouco a pouco,
por cada um e por todos,
quando o mundo for palco de boas semeaduras
e menos egoísmo.

Sentir-se triste?
Para quê?
Lembremo-nos, alguém já nos disse:

Vós sois a Luz do mundo!

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Mais em: https://www.facebook.com/ajaneladosespiritas?ref=hl


sexta-feira, 15 de maio de 2015

É tempo, é hora... ( por Lúcio Heleno)

Nesse mundo,
não falta quem queira atirar mais uma pedra,
sempre aparecerá quem tenha mais uma palavra
de acusação, uma ofensa gratuita,
um sentimento ressentido, uma mágoa escondida...


Não falta, pois,
quem queira assoprar ainda mais
as brasas das fogueiras do mundo,
não falta quem se felicite com a dor alheia,
e pouco se lembre do que um dia disse o Nazareno:

Quando vestires a um maltrapido,
é a mim que estarás vestindo...

Não falta, nesse mundo de tantas provas
e duras expiações,
quem se ofenda facilmente,
quem do orgulho ferido e mimado
faça guerras,
e sobre a caridade e o perdão
nem mísera menção...

Se ao corpo de muitos falta pão,
a maioria morre sem amor...

Morremos, atravessamos o véu,
voltamos para casa,
muitas vezes igualmente pobres
(de obras)
ao momento em que descemos à carne....

Passamos pelo mundo,
tantas vezes,
quantas flores semeamos, quantos irmãos socorremos,
quantas lágrimas enxugadas, quanto bem espalhado,
quanto tempo aproveitado
(em prol do mundo e não somente de nós) ?

É tempo,
tempo de calar se for ofender,
escutar com humildade para aprender,
perdoar as falhas e erros dos outros
já que não raras vezes erramos
(se não no presente, mas no passado)
mais e de forma mais vergonhosa....

É tempo de apagar as fogueiras de incompreensão
com palavras líquidas de amor e esperança,
é tempo de derrubar montanhas de preconceitos,
e arar a terra (os corações) com humildade
e fraternidade....

É tempo de solidariedade,
de ensinar as crianças a amar em vez
de irrefletidamente (como fazem as feras) revidar o tapa...

É tempo, é hora
de esperarmos o novo mundo,
a Nova Era - ela está à porta!

É tempo de amar, amar,
amar...

É tempo de unir a fé e a razão,
de ver a terra e o céu dando-se as mãos,
tempo de sublimar a matéria com o espírito...

É tempo, é hora
de mudança,
regeneração,
compaixão,
recomeço,
novas energias, novos passos,
a luz de Deus (o Amor Supremo, que tão pouco ainda conhecemos)
a crescer em nós...

Todas as radiantes manhãs são precedidas pela sombra
rápida da madrugada,
é tempo, é hora...

Uma fresta, uma faixa
de luz e felicidade se acende no horizonte,
vivamos!

Vivamos com amor e sabedoria
a nossa eternidade!

quinta-feira, 14 de maio de 2015

EM PAZ (Auta de Souza)

Tanto roguei a paz consoladora,
Durante os meus amargos sofrimentos,
Elevando a Jesus meus pensamentos,
Que recebi a paz confortadora!

Sentindo- me feliz, ditosa agora,
Nessas paragens de deslumbramentos,
Onde terminam todos os tormentos
Que inundam de amargor a alma que chora.

Jesus! doce Jesus meigo e bondoso,
Quanto agradeço a paz que concedestes
Ao meu viver tristonho e doloroso!

E desse lindo oásis encantado,
Canto de luz dos páramos celestes,
Bendigo o vosso amor ilimitado!

(Poema de Auta de Souza retirado do livro ''Parnaso do Além-túmulo'', psicografado pelo médium Francisco Cândido Xavier)