Orpheus, de Franz Stuck

domingo, 30 de agosto de 2015

manhã de sol amena
e meiga
é teu rosto, o primeiro que vejo
quando abro os olhos

mar liso, ondulante
e lascivamente inocente
é teu corpo tão entregue a mim, seminu
e adormecido

nuvens brancas de paz e reconciliação
são os nossos lençóis
embrulhados
entre nossas pernas, sinto os teus pés, como são lisos

Primavera que chega e ilumina
o quarto com luzes descansadas
é o amor novo que me trouxeste

levanto-me devagar, o beijo demorado na tua boca
é fôlego para o meu dia

fica a dormir, querido,
quando for noite eu trarei lírios e te despirei
como quem limpa um frágil aquário

dentro de ti, em ti, nadarei
entre corais e medusas pacíficas,
teus pelos se arrepiam e eu estou quase lá

adormecidos
vamos andar de barco no grande rio do espírito,
tu tens os remos,
leva-me ao Mar.

sábado, 29 de agosto de 2015

será que amar
é mergulhar de novo
profundo e delicadamente
no verde esmeraldino
do Atlântico
que se reapresenta a mim
através desse par de olhos novos
que encontrei em dias invernais?


será que amar
é mesmo possível
como antes
e ver as gaivotas poisando na praia
e caminhar catando conchas
e olhar as tuas sardas como se fossem
a Via Láctea
e beijar teu dorso, apertar tuas pernas,
sentir teu corpo leve se abrir para mim em prazer revelado
e sincero?


será amar
ou é o mar
do desejo
que, por sede, sempre nos está a empurrar
para a frente, para alguém,
em suas marolas há corpos de gente,
o meu e o teu, enrolados agora
em lençóis brancos acetinados
numa quinta-feira à noite, nus sobre a cama ainda fria,
carentes de quentura, prontos para a guerra?

será?

domingo, 23 de agosto de 2015

Nuit nue

O, nuit nue,
Te regard avec mes yeux
viciés e ma visage
ennuyée


O, nuit sombrie,
Te veux avec mon âme
pleine de songe
que vibre encore

O, nuit irrémédiable,
te vois triste
mais je t'aime
même ainsi

O, nuit sans fin,
sans malheur
sans brille
calme et langueureuse

O, nuit longue,
que le vent t'insuffle
sa magie unique
dans son rugir

-- Hamilton Alves em ''O cão noturno''.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Os lírios brancos.

Os lírios brancos que vês nos campos,
Nos prados amarelados do Alentejo,
Onde vais aliviar teu espírito desenfreado,
Sou eu, o meu corpo,
A delicadeza que sou, a paz que vislumbro,
O amor que sinto por ti,
A morte que não é nada senão brisa que transpassa
E nos separa momentaneamente.








terça-feira, 11 de agosto de 2015

MIRAGEM



aves de rapina num céu azul celeste
o sol forte mas ameno do solstício de inverno
iluminando a crosta sul da Terra

e eu
caminhante eterno
pernas que se afundam na areia fina
das dunas brancas etéreas
que se estendem por boa parte de Garopaba
sinto-me perdido, perdido no deserto

vertigem
as minhas pernas falseiam, a luz se torna opaca
miragens, imagens turvas da mente, tempestade de areia
as coisas giram

volto a mim
já não estou no sul da pátria do cruzeiro
o mar se foi
só vejo o Nilo

a minha pele já não é branca
mas morena, como o cobre
os meus olhos agora são estreitos e as pupilas negras, felinas
falo uma língua que não existe mais e
digo com força e orgulho:
KEMET!

escravos persas constroem um novo templo, lapidam paredes
o faraó está ao meu lado, digo-lhe nessa língua estranha
palavras que significam:

''Filho de Hórus, mal foi revelado, Atón já tem inimigos!
Seth, o deus escuro, aquele que ainda habita os corações humanos,
não descansa!''

O faraó não me ouve, está longe, em transe
o disco solar fala consigo
no norte, no entanto, falcões, os falcões de Amon!

aves de rapina num céu azul celeste
meus olhos se fecham como se pesassem o mundo
o entardecer se aproxima
sinto força novamente em minhas pernas, voltarei para casa

o meu coração flutua então mais leve
desço o caminho que me levou às dunas
o mar está calmo, quase sem ondas
penso: 

viajar no tempo nos dá ânimo
um certo sentimento de liberdade, asas
como as têm as aves
que voam por sobre a terra, por sobre as águas
do Nilo, do Atlântico...

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

GLÁDIO - Fernando Pessoa


A Alberto Da Cunha Dias


Deu-me Deus o Seu Gládio, porque eu faça
A Sua santa guerra.
Sagrou-me Seu em génio e em desgraça
As horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e dourou‑me
A fronte com o olhar:
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer-justiça são Seu Nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do Gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha Alma!



Orpheu, nº 3. (Lisboa: 1916) (Preparação do texto, introdução e cronologia de Arnaldo Saraiva.) Lisboa: Ática, 1984. - 35.

domingo, 2 de agosto de 2015

ÀS VOLTAS

às voltas

espirais sobre o teu corpo-fantasma

avenidas desertas e um cão noturno
a latir
música para meus ouvidos


sinal vermelho ou sinal verde
não importa, não há ninguém nesta via

às voltas sobre mim

palavra encanto
que ainda reverbera
feitiço
ou porta sem chave para ser fechada

espera

a mentira é uma inexatidão, Ricardo Reis, eu sei

às voltas sobre um cadáver que não existe, abutre

braço amputado que coça, formiga,
que se ergue para te tocar

fadiga.