Orpheus, de Franz Stuck

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Trecho de ''Teleny, ou o reverso da medalha''

(...)


     E tomando  as flores de sua lapela,  ele as pôs na minha apenas com uma das mãos, ao mesmo tempo em que passava seu braço esquerdo em torno da minha cintura e me apertava com com força, pressionando-me contra seu corpo inteiro por alguns segundos. Esse curto intervalo pareceu-me uma eternidade. 
     Pude sentir seu hálito quente e ofegante sobre meus lábios. Embaixo, nossos joelhos se tocaram, e senti algo duro comprimir-se e movimentar-se de encontro às minhas coxas. 
     Minha emoção naquele momento era tal que mal podia ficar de pé; por um momento pensei que ele fosse beijar-me — mais do que isso, os pêlos crespos do seu bigode roçavam ligeiramente os meus lábios, produzindo a mais deliciosa das sensações. Porém, ele apenas olhou no fundo dos meus olhos com um fascínio demoníaco.
     Senti o fogo do seu olhar mergulhar profundamente no meu peito, e muito mais abaixo. Meu sangue começou a ferver e borbulhar como um fluido em ebulição, e senti meu... (o que os italianos chamam de “passarinho”, e representavam como um querubim alado) lutar contra a sua prisão, erguer sua cabeça, abrir seus minúsculos lábios e novamente expelir uma ou duas gotas daquele fluido viscoso gerador da vida. 
     Mas aquelas poucas lágrimas — longe de serem um bálsamo atenuante — pareciam gotas de um líquido cáustico, queimando-me e produzindo uma forte e insuportável irritação.
    Eu me sentia torturado. Minha mente era um inferno. Meu corpo estava em chamas.
     Bem nesse momento ele soltou seu braço de minha cintura, e este caiu inerte com seu próprio peso, como o de um homem adormecido.
— Você acha que sou louco? — disse ele. Depois, sem esperar uma resposta: — Mas quem é são e quem é louco? Quem é virtuoso e quem é pervertido neste nosso mundo? Você sabe? Eu não.
     A lembrança de meu pai me veio à mente e perguntei a mim mesmo, trêmulo, se meu senso também estaria me deixando.
     Houve uma pausa. Nenhum de nós falou por algum tempo. Ele havia entrelaçado seus dedos com os meus, e caminhamos por alguns momentos em silêncio.
     Todos os vasos sanguíneos do meu membro ainda estavam fortemente distendidos e seus nervos rígidos, os dutos espermáticos cheios a ponto de transbordar; portanto, com a ereção persistindo, senti uma dor surda se espalhar pelos órgãos reprodutores e suas proximidades, ao mesmo tempo em que o resto do meu corpo encontrava-se num estado de prostração, e ainda assim — apesar da dor e do langor —, era um sentimento muito prazeroso caminhar calmamente com nossas mãos entrelaçadas, sua cabeça quase pousada no meu ombro.
 — Quando foi que você sentiu pela primeira vez os meus olhos nos seus? — ele me perguntou, num tom baixo, depois de algum tempo.
— Quando você subiu ao palco pela primeira vez. 
— Exatamente; então nossos olhares se encontraram, e depois estabeleceu-se uma corrente entre nós, como uma faísca elétrica percorrendo um fio condutor, não foi? 
— Sim, uma corrente ininterrupta. 
— Mas você realmente me sentiu antes que eu me retirasse, não é verdade?
     Como única resposta, pressionei seus dedos com força.

(...)

    A carne, o sangue, o cérebro, e aquela indefinível parte mais sutil dos nossos seres pareceram fundir-se num inefável abraço. 
    Um beijo é algo mais do que o primeiro contato sensual entre dois corpos; é a emanação de duas almas enamoradas. 
    Mas um beijo criminoso, ao qual se resiste e combate durante muito tempo, e é por esse motivo há muito há muito ansiado, está além disso; é tão luxuriante quanto o fruto proibido; é uma brasa incandescente sobre os lábios; uma marca a ferro quente que queima a fundo, e transforma o sangue em chumbo derretido ou mercúrio escaldante. 
    O beijo de Teleny era realmente galvânico, pois eu podia sentir seu sabor até em meu palato. Era necessário um juramento, quando já havíamos nos dado tal beijo? Um juramento é uma promessa de boca para fora, que com frequência pode ser, e é, esquecida. Um beijo como aquele acompanha-nos até a sepultura. 
    Enquanto nossos lábios estavam unidos, sua mão lentamente, imperceptivelmente, desabotoou minhas calças, e sorrateiramente deslizou para dentro da abertura, pondo cada obstáculo em seu caminho instintivamente de lado  até tomar posse do meu falo duro, teso e dolorido, que ardia como o carvão em combustão.

(...) 

WILDE, O. Teleny, ou o reverso da medalha. São Paulo: Hedra, 2008. *

* Este livro foi publicado anonimamente em 1893, na Inglaterra, e hoje se sabe que se trata de um esforço conjunto de amigos de Oscar Wilde. O autor de ''O Retrato de Dorian Gray'' teria, na verdade, sugerido alguns episódios e dado a forma final ao texto.


DEUS

procuro, nesta noite incauta, eu procuro,
a busca talvez mais óbvia,
mas também mais difícil, demoradamente compreendida pelos espíritos,
procuro por Deus nesta noite,
sim, Deus, a face-luz do Universo, da Vida,
o começo, o meio, a eternidade,
a paz, 
a felicidade,
procuro por ele, por Deus, 
que pode, o único que pode, 
me dar paz, pôr fim aos fantasmas todos que ainda teço,
mas é uma busca difícil, como disse, 
somos nós quem temos de caminhar até ele,
que não é um homem, que não é uma mulher,
que é algo para-além da nossa compreensão atual,
ele, o Amor-puro, a Verdade, a Justiça,
o Todo, a Mãe, o Pai,  a causa de todas as coisas,
 aquele que nos criou com todo o seu amor
e que de nós espera o mesmo,
espera que, aos poucos,
aprendamos a ser também amor,
a dar amor, a ensinar amor,
a viver, pensar, sentir
amor,
a pulsar amor,
a distribuir, a mostrar, a orientar os outros a chegarem lá,
no amor universal,
na liberdade verdadeira e na felicidade plena,

sim,
amar, amar, amar,
dividir o pão,
demolir o orgulho, rasgar as vaidades vis,
matar de todo o egoísmo,
perdoar,
mágoas cindir,
amar, ser leve, manso,
aprender a dar a outra face,
e dedicar ao outro o amor que dedicamos a nós próprios,
abandonar, por fim, o pobre e tolo Narciso
e ser grande, belo e humilde como o Cristo. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

MAS ERA PRIMAVERA (conto)

   Mas era primavera. E chovia, como chovia, era primavera e chovia como se fosse outono, ou inverno. Os vidros frouxos da janela balançavam, tremiam-se, debatiam-se, Fernando estava incomodado. ''Droga de vento, droga de vida'', disse para si mesmo depois de apagar o cigarro num vaso onde uma ressequida e insistente muda de violeta tentava sobreviver. Fechou a janela, sentou-se no sofá, não ligou a TV, preferiu ficar olhando para a parede. Os seus olhos se detiveram numa velha tapeçaria, dependurada na sala do seu apartamento, onde se via reproduzida uma cena bela e familiar: sob uma grande árvore, um frondoso canhoeiro, em meio a savana, um casal de leões descansava. Ela, apoiada nas duas patas, olhava para frente, atenta a qualquer movimento estranho na relva; um coelho, um veado, um antílope. Ele, o rei da selva, dorme, esticado e despreocupado, os olhos fechados, confiante de que sua fêmea achará facilmente uma presa, o alimento do dia. Aquela tapeçaria pertencera à sua mãe, Fernando a via desde criança, mas só agora se sentira de fato incomodado com ela. Levantou-se, foi até a tapeçaria, olhou mais uma vez para o casal de felinos, tão tranquilos, tão naturais, felizes talvez.. ''Ok, vocês venceram, vou deixá-los aí, por enquanto, por enquanto''.
   Mas a chuva, sim, a chuva. Fernando voltou a sentir raiva da chuva. Há duas semanas que chovia assim, sem parar. Ele, que trabalhava em casa e morava num confortável apartamento de um confortável edifício, localizado num confortável bairro, além da privação dos passeios que costumava fazer pelo parque durantes as manhãs, não podia dizer que a chuva prejudicava, em grande escala, a sua vida. Mas tinha de pôr a culpa em alguma coisa, tinha de ter algo para amaldiçoar e do que reclamar. Se não ele explodiria. Sejamos complacentes com o rapaz, ele está sofrendo. Sofrendo de amor, é preciso dizer ainda.
   ''Eu te odeio", disse ele para um homem cujo crime único era o de não amá-lo, quer dizer, o de ter deixado de amá-lo. Estava agora em frente ao seu computador. Torturava-se: na tela do computador o rosto do criminoso, sorridente e feliz, olhando-o com doçura. Apertou o botão direito do mouse, outra foto aparecera: os dois abraçados e felizes, no zoológico. Lembrava bem daquele dia, foi há três anos, no seu aniversário. Atrás deles, uma gigantesca girafa, melancólica, parada, olhando para o nada. Aquela girafa não parecia inocente, parecia triste, parecia entendiada, parecia conhecer um pouco da vida, da solidão que é a vida. E os dois ali sorrindo, abraçados diante dela, tão tolos, tão inocentes.
   ''Chega. Não posso mais fazer isso comigo'', fechou a tela do computador, levantou-se como um animal acuado e feroz. Foi até a janela, de novo. Chovia ainda, mas agora um pouco mais fraco. Fernando decidiu-se. Não ficaria em casa como um animal enjaulado. Ia levar seu ódio para passear. Pegou o seu casaco marrom no cabide, vestiu suas botas, bateu a porta e saiu.
   Então se pôs a caminhar pelos quarteirões da cidade, os passos largos, atravessava as ruas e nem sequer reparava nos semáforos. Queria desafiar a morte, ser violento. Teve sorte, chegou vivo e ofegante numa praça larga, cercada por árvores e com uma velha figueira no centro. A chuva ficara ainda mais fraca, as pessoas caminhavam com menos pressa, olhavam para os lados, evitando as poças. Fernando seguia com raiva, olhando para o chão, as mãos fechadas nos bolsos. ''Eu te odeio, eu te odeio'', dizia para si quando via um homem parecido com aquele que amava, atravessando a rua ou parado a fumar numa esquina qualquer. 
   Mas de repente Fernando parou, olhou em volta e reparou que havia um certo movimento no centro da praça, um pequeno grupo de pessoas amontoava-se ali, ''O que está a se passar?''. A raiva diminuiu, seus tentáculos brancos de espuma perderam espessura, ele a encabelou com curiosidade.
   Quando chegou perto o bastante, Fernando entendeu o que se passava. As pessoas haviam parado para ver e ouvir três velhinhas que cantavam na praça, sentadas em banquinhos de madeira, os rostinhos simpáticos e as vozes não se podia dizer que não eram agradáveis. Fernando relaxou, sentiu o corpo descontrair-se, tirou as mãos dos bolsos. Ficou a ouvir aquela singela cantoria. Certa paz enfim.


Ratoeira bem cantada
faz chorar, paz padecer;
também faz um triste amante;
o seu amor esquecer. 


   Algo dentro dele se desestabilizava, modificava-se, algo acabava. Quando ele colocou uma nota de dois reais na pequena caixinha de madeira que havia perto dos pés de uma das velhinhas, um animal negro e grande foi levado pela enxurrada, desapareceu, afogou-se, e ninguém ouviu os seus mugidos. E depois a chuva parou, não voltou mais naquele dia. O céu continuou cheio de nuvens e cinzento, a frente fria continuaria sobre a cidade, mas dava uma trégua para que os mortais pudessem respirar um pouco, enterrar seus mortos, esperar o sol e a primavera que, mesmo atrasada, haveria de vir, haveria. 


***

Charles Berndt

19/10/2015

18/10/2015

o que trazem os dias nublados

além desta calma
utópica
plena mansidão
que olha o dia complacentemente
como se fosse o último?


o que trazem os dias nublados
além desta santa
saudade
imaculada e profana
do teu corpo de outrora?

o que trazem os dias nublados
além desta desnuda
vontade
dama sem piedade
de pura introspecção?

o que trazem os dias que se vestem de cinza,
então?

adiantará eu me vestir de vermelho
numa última desesperada tentativa
de dizer que ainda há vida
e paixão, sim, paixão e viço
no meu ser tão sem razão?

adiantará dizer assim
que ainda há lucidez
nos meus passos de lentidão
em direção a janela,
donde olho a avenida e não vejo ninguém,
não há ninguém, não vem ninguém,
tudo é silêncio, libido e pardacento,
devassidão,
um palavrão, um olhar de desdém.

27/09/2015

e vou caminhando triste
pulando as poças d'água
em vão
as minhas botas já estão molhadas


e vou pensando na vida
vendo na água o meu rosto, o teu rosto
aquele dia em que atravessei alegre a ponte de Santa Clara pra te encontrar
aquele abraço que não foi suficiente pra me despedir

e vais passando então diante de mim
fugidio
como uma ave branca
fantasma
pulando as poças, perdendo-te na névoa
rindo diabolicamente
ganhando voo
olhando o Iphone sem dar por mim

e vou segurando o guarda-chuva
sem força e sem vontade
completamente encharcado
compondo versos na mente
fingindo que a dor não existe
que não há saudade e que faz sol
não, não está chovendo
eu não estou chorando
e tu nunca cruzaste a avenida para me beijar

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

CAFÉ AROMA (ou uma pequena viagem qualquer, essas de fim de dia)

sento no Café Aroma, que não tem nada de especial, é só mais um café
desses tantos que há pelo centro de Floripa

talvez eu esteja sendo injusto, há, sim, algo de especial no Café Aroma,
um ''não sei quê'' de nostalgia, que me provoca uma saudade, uma melancolia,
lembro das então pastelarias
da baixa de Coimbra

sento-me perto da porta,
que é pra ver quem passa na velha e antiquada João Pinto,
rua a pintar todos dias um outro tempo, uma Floripa cada vez mais distante,
perdida e esquecida

pergunto se tem pastel de natas e o garçom olha-me como se tivesse feito
uma pergunta n'outra língua,
explico que pastel de natas é o mesmo que pastel de belém,
ele sorri mais contente, mas fecha a cara e diz,
Não, senhor, às vezes temos, mas hoje não,
Certo, dá-me, então, um pedaço daquela torta de limão
e uma média com leite, se faz favor

é estranho,
estranho ser estrangeiro na própria terra,
ser estrangeiro no meu país,
desde que voltei da minha viagem não fui capaz de me reencontrar,
e levo, todos os dias, na alma esse modo melancólico propriamente luso de ser,
olhar a vida, tomar café, ler o jornal e abrir os livros

o tempo, este aqui da João Pinto,
das ruas da parte velha da cidade, esta que ainda guarda
o ar, o aroma, de um passado que tem
cada vez mais a aparência dum fantasma,
é outro, outro tempo,
as pessoas caminham menos apressadas e não andam segurando smartphones,
talvez nem sintam azias, pós-modernas azias

gosto particularmente dos sebos, de entrar nesses lugares poeirentos,
cheios de livros velhos e revistas inúteis, e reparar na cara de quem ali
passeia, cruza os corredores a pensar na vida, nas angústias de cada dia,
a procurar pequenos gozos, singelas doses para a alma de ambrosia

o café já está frio, bebo-o mesmo assim,
afinal dizem que estamos em crise, é preciso economizar até mesmo nos cafezinhos,
sobre a mesa está o meu livro do Garrett, aquele das Viagens,
Viagens na minha terra

o garçom não conhece Garrett, repara no meu livro curioso, mas com olhar decepcionado,
de certo esperava que eu estivesse a ler outra coisa,
reparo no modo como ele se escora no balcão, o tédio que tem no olhar,
as coxas grossas e os pêlos no peito que aparecem por conta da camisa de gola cavada,
eu te levaria para casa, petit garçon,
namoraríamos durante dois anos e viria te esperar todas as tardes, sentaria sorridente,
tu farias gracinhas e eu ficaria reparando no modo como rebolas e te insinuas
para mim

suspiro fundo, percebo que o tempo está a se fechar,
Vem chuva aí, diz um senhor que está sentado do lado de fora,
mais para si que para qualquer outro,
somos todos assim, uns solitários, vivemos constantes monólogos

um casal entra no café de mãos dadas, sorriem
como se o amor não acabasse e eles para sempre fossem se amar,
doce ingenuidade, bastará que numa noite de verão, ela cansada,
ele, cheio de libido e de machismo, se enfeze com um não,
Não, não vamos transar hoje, querido, tenho dor de cabeça,
e pronto, terá sido em vão os juramentos feitos ao padre e ao escrivão

tudo se finda,
aceitemos, os corpos apodrecem, as revoluções tornam-se autoritarismos,
o amor vai ficando pra depois,
as viagens, como todas, terminam,
como esta pequena e despretensiosa viagem
que fiz, sentado nesta mesa de café, num dia qualquer,
lembrando, pensando, querendo escrever esses versos
que só serão escritos horas depois, na minha casa,
e já não serão os versos certos, os que pensei,
serão outra coisa, outra viagem,

aqui o mar, mental, acaba e a terra, que é corpo, fica.

(C. Berndt - 13.10.2015)

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

IV

Adormece o teu corpo com a música da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quere ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?


(Cecília Meireles em ''Cânticos'')