Orpheus, de Franz Stuck

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Há dias em que a carne endurece,
Entorpece, em que as palavras,
Tantas vezes pétalas, tornam-se pedras.

Então sou mármore, semblante triste esculpido,
Estátua de Michelangelo, olhos de Antígona,
O rosto de Atena esquecido
A mirar o Longínquo, uma ave noturna
Que voa para o meu Olimpo perdido.


sexta-feira, 8 de abril de 2016

Corpo morto

E já lá vai
distante
saindo da baía rumo ao horizonte
o barco branco
a levar o corpo morto
da jovem infante


sobre os seios delicados
alvas margaridas
sobre a cabeça castanhada
uma coroa de tristes violetas

o corpo da moça que lá vai morto
mais gelado que as águas salgadas
do mar
sou eu
é o meu corpo
o corpo de Inês e o de Ofélia
é o corpo de Orfeu

o corpo de quem se perdeu
na vida
e cuja morte talvez fosse uma saída
não fosse a morte a morte

com os olhos marejados de lágrimas
e algas
fico a ver meu corpo
esta que fui
e que jamais serei novamente

amor como aquele nunca mais
nem sorte, nem morte
não há, por fim, Ulisses que possa vir do Norte.

C. Berndt