Orpheus, de Franz Stuck

terça-feira, 25 de outubro de 2016

procura

a procurar
a procurar
tenho estado assim, a procurar
não sei o que
quem
qual tempo
exato
nem mesmo sei quando foi que se partiu
quando foi que me perdi na floresta do sonho
a procurar uma brisa que senti
a cor duma camiseta
de um cachecol
o cheiro do pescoço de um homem
a procurar o indizível
o longínquo
o fácil
aquilo que dói menos
e às vezes é difícil dizer
difícil dizer tudo que aperta
difícil subir a rua e ter coragem pra virar à direita
quando o corpo acostumado quer ir à esquerda
a procurar, sabe, um rosto
talvez
não, não
é preciso que se diga o que se procura
mesmo
mas se não se sabe
ao menos que se procure o que pode ser achado
não aquilo que foi para o fundo do mar
que foi para Boston
para Cingapura
ou o raio que o parta
a procurar por um sonho
por um minuto verdadeiro de silêncio
a procurar uma paz gigante
que me cubra de flores
margaridas
numa tarde verde de julho
em que voem palavras de respiração
desprendidas
cheias de sons leves
brilhantes
como o rosto jovem da minha irmã cheio de sonhos
é bom ver que a juventude tem asas pra voar
ainda
nestes tempos tão
tão não sei quê
e tudo se perde então
nas vagas
na noite
na solidão
e na esperança
que sempre, sempre renasce
afinal, a vida só é a vida porque não tem fim
deste ou do outro lado
então
a procurar o amor, sim,
a sede que todos temos
o amor verdadeiro que nos há de libertar
deste mar
de loucura
de lonjura
de dor

amor,
procura.