terça-feira, 11 de agosto de 2015

MIRAGEM



aves de rapina num céu azul celeste
o sol forte mas ameno do solstício de inverno
iluminando a crosta sul da Terra

e eu
caminhante eterno
pernas que se afundam na areia fina
das dunas brancas etéreas
que se estendem por boa parte de Garopaba
sinto-me perdido, perdido no deserto

vertigem
as minhas pernas falseiam, a luz se torna opaca
miragens, imagens turvas da mente, tempestade de areia
as coisas giram

volto a mim
já não estou no sul da pátria do cruzeiro
o mar se foi
só vejo o Nilo

a minha pele já não é branca
mas morena, como o cobre
os meus olhos agora são estreitos e as pupilas negras, felinas
falo uma língua que não existe mais e
digo com força e orgulho:
KEMET!

escravos persas constroem um novo templo, lapidam paredes
o faraó está ao meu lado, digo-lhe nessa língua estranha
palavras que significam:

''Filho de Hórus, mal foi revelado, Atón já tem inimigos!
Seth, o deus escuro, aquele que ainda habita os corações humanos,
não descansa!''

O faraó não me ouve, está longe, em transe
o disco solar fala consigo
no norte, no entanto, falcões, os falcões de Amon!

aves de rapina num céu azul celeste
meus olhos se fecham como se pesassem o mundo
o entardecer se aproxima
sinto força novamente em minhas pernas, voltarei para casa

o meu coração flutua então mais leve
desço o caminho que me levou às dunas
o mar está calmo, quase sem ondas
penso: 

viajar no tempo nos dá ânimo
um certo sentimento de liberdade, asas
como as têm as aves
que voam por sobre a terra, por sobre as águas
do Nilo, do Atlântico...

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

GLÁDIO - Fernando Pessoa


A Alberto Da Cunha Dias


Deu-me Deus o Seu Gládio, porque eu faça
A Sua santa guerra.
Sagrou-me Seu em génio e em desgraça
As horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e dourou‑me
A fronte com o olhar:
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer-justiça são Seu Nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do Gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha Alma!



Orpheu, nº 3. (Lisboa: 1916) (Preparação do texto, introdução e cronologia de Arnaldo Saraiva.) Lisboa: Ática, 1984. - 35.

domingo, 2 de agosto de 2015

ÀS VOLTAS

às voltas

espirais sobre o teu corpo-fantasma

avenidas desertas e um cão noturno
a latir
música para meus ouvidos


sinal vermelho ou sinal verde
não importa, não há ninguém nesta via

às voltas sobre mim

palavra encanto
que ainda reverbera
feitiço
ou porta sem chave para ser fechada

espera

a mentira é uma inexatidão, Ricardo Reis, eu sei

às voltas sobre um cadáver que não existe, abutre

braço amputado que coça, formiga,
que se ergue para te tocar

fadiga.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

NOITE DE CHUVA - Florbela Espanca.




Chove na noite fria da ilha da magia. Oiço, dentro de mim, uma voz, quente e delicada, velha conhecida, amiga minha e das palavras:


NOITE DE CHUVA

Chuva... Que gotas grossas!... Vem ouvir:
Uma... duas... mais outra que desceu...
É Viviana, é Melusina a rir,
São rosas brancas dum rosal do céu...


Os lilases deixaram-se dormir...
Nem um frémito... a terra emudeceu...
Amor! Vem ver estrelas a cair:
Uma... duas... mais outra que desceu...

Fala baixo, juntinho ao meu ouvido,
Que essa fala de amor seja um gemido,
Um murmúrio, um soluço, um ai desfeito...

Ah, deixa à noite o seu encanto triste!
E a mim... o teu amor que mal existe,
Chuva a cair na noite do meu peito!

Florbela Espanca, em ''Reliquiae'', 1934

sábado, 11 de julho de 2015

O DESEJADO

Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado!


Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo,
Mas já no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucaristia Nova.

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Gral!

(Fernando Pessoa em ''Mensagem'')



segunda-feira, 6 de julho de 2015

e na brancura seca desta rua
desta névoa sufocante que sou eu
respirar


respirar


respirar


respir...ar


ar
que me falta
ar que não sou

domingo, 5 de julho de 2015

Mundo Azul


há em meus olhos tristes
uma chama azul
lâmpada
gás
éter
algo, algo
um sentimento, um jeito, um gesto
que diz que não sou deste mundo

em meus olhos tristes jaz o meu segredo
o caminho de um planeta luminoso e feliz perdido por mim e por meus olhos
numa via distante do Universo

sou um exilado, um rebelado

mas ainda oiço os cantos dos meus irmãos
seres dourados, brancos como a neve, mantos azuis, as orelhas pontudas,
as mãos delicadas e as vozes mais doces e mais belas que já ouvi

um dia voltarei para lá, para a minha Ítaca
o meu Mundo Azul perdido
e ainda não esquecido

a Terra amada de hoje, bela e menos azul,  tem me dado as justas asas
que antes tanto reneguei

há em meus olhos
uma chama azul
apontando para o Sul
revelando a minha sede de transformação
o Amor finalmente começa penetrar minh'alma desterrada

voltarei para casa, há quem lá espere por mim,
uma pequena família amada

o meu peito então nesse dia
 irá refletir
o Sol, o meu Sol, aquele Sol
estrela Suprema Azul, delicada Sirius
de quem tanto sinto falta, de sua luz
que preenche a vida dos angélicos homens do Sul

voltarei, feliz, irmãos
finalmente transmutado
depois de tanto ser proscrito, voltarei
a aura azul-lilás,  nobre, bondoso e luminoso espírito


terça-feira, 30 de junho de 2015

Floripa, 17 de junho de 2015. Noite, madrugada, a janela aberta, eu insonioso.

como é azul e escuro e cheio
de estrelas
o céu no inverno

vejo claramente os braços leitosos da Via-láctea,
gigantes e flutuantes no espaço

tenho mente imaginativa e pensamentos luxuriosos
frequentemente
imagino de qual deus terá nascido nossa galáxia,
sendo ela uma via de esperma, não de leite materno

e fico a pensar no lugar
que estamos, no lugar
que a Terra fica dentro desta galáxia

li em algum lugar que o sistema solar,
o nosso,
fica no finzinho do fim
da Via-láctea, num dos últimos braços ou dedos mindinhos, vivemos,
portanto, num subúrbio sideral

um dia, senhores, um dia
ainda me vou embora, arrancarei as roupas do varal,
e partirei sem despedidas, vou viver no centro galáctico,
vou ser importante,
vou-me embora,
vou-me embora para Alcíone.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Quem me leva os meus fantasmas? (Pedro Abrunhosa/ interpretação de Maria Bethânia)

Aquele era o tempo em que as mãos se fechavam
E nas noites brilhantes as palavras voavam
E eu via que o céu me nascia dos dedos
E a Ursa Maior eram ferros acesos
Marinheiros perdidos em portos distantes
Em bares escondidos em sonhos gigantes
E a cidade vazia da cor do asfalto
E alguém me pedia que cantasse mais alto


Quem me leva os meus fantasmas?

...



terça-feira, 19 de maio de 2015

Vós sois a Luz do mundo!


A paz que tantas vezes nos falta
no mundo, nos rostos, nas ruas
pode ser encontrada onde menos procuramos,
dentro-fundo do peito,
onde o Infinito nos plantou uma semente
de sabedoria e progresso.


A paz
há-de ser alcançada, pouco a pouco,
por cada um e por todos,
quando o mundo for palco de boas semeaduras
e menos egoísmo.

Sentir-se triste?
Para quê?
Lembremo-nos, alguém já nos disse:

Vós sois a Luz do mundo!

**

Mais em: https://www.facebook.com/ajaneladosespiritas?ref=hl