e vou caminhando triste
pulando as poças d'água
em vão
as minhas botas já estão molhadas
e vou pensando na vida
vendo na água o meu rosto, o teu rosto
aquele dia em que atravessei alegre a ponte de Santa Clara pra te encontrar
aquele abraço que não foi suficiente pra me despedir
e vais passando então diante de mim
fugidio
como uma ave branca
fantasma
pulando as poças, perdendo-te na névoa
rindo diabolicamente
ganhando voo
olhando o Iphone sem dar por mim
e vou segurando o guarda-chuva
sem força e sem vontade
completamente encharcado
compondo versos na mente
fingindo que a dor não existe
que não há saudade e que faz sol
não, não está chovendo
eu não estou chorando
e tu nunca cruzaste a avenida para me beijar
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
terça-feira, 13 de outubro de 2015
CAFÉ AROMA (ou uma pequena viagem qualquer, essas de fim de dia)
sento no Café Aroma, que não tem nada de especial, é só mais um café
desses tantos que há pelo centro de Floripa
talvez eu esteja sendo injusto, há, sim, algo de especial no Café Aroma,
um ''não sei quê'' de nostalgia, que me provoca uma saudade, uma melancolia,
lembro das então pastelarias
da baixa de Coimbra
sento-me perto da porta,
que é pra ver quem passa na velha e antiquada João Pinto,
rua a pintar todos dias um outro tempo, uma Floripa cada vez mais distante,
perdida e esquecida
pergunto se tem pastel de natas e o garçom olha-me como se tivesse feito
uma pergunta n'outra língua,
explico que pastel de natas é o mesmo que pastel de belém,
ele sorri mais contente, mas fecha a cara e diz,
Não, senhor, às vezes temos, mas hoje não,
Certo, dá-me, então, um pedaço daquela torta de limão
e uma média com leite, se faz favor
é estranho,
estranho ser estrangeiro na própria terra,
ser estrangeiro no meu país,
desde que voltei da minha viagem não fui capaz de me reencontrar,
e levo, todos os dias, na alma esse modo melancólico propriamente luso de ser,
olhar a vida, tomar café, ler o jornal e abrir os livros
o tempo, este aqui da João Pinto,
das ruas da parte velha da cidade, esta que ainda guarda
o ar, o aroma, de um passado que tem
cada vez mais a aparência dum fantasma,
é outro, outro tempo,
as pessoas caminham menos apressadas e não andam segurando smartphones,
talvez nem sintam azias, pós-modernas azias
gosto particularmente dos sebos, de entrar nesses lugares poeirentos,
cheios de livros velhos e revistas inúteis, e reparar na cara de quem ali
passeia, cruza os corredores a pensar na vida, nas angústias de cada dia,
a procurar pequenos gozos, singelas doses para a alma de ambrosia
o café já está frio, bebo-o mesmo assim,
afinal dizem que estamos em crise, é preciso economizar até mesmo nos cafezinhos,
sobre a mesa está o meu livro do Garrett, aquele das Viagens,
Viagens na minha terra
o garçom não conhece Garrett, repara no meu livro curioso, mas com olhar decepcionado,
de certo esperava que eu estivesse a ler outra coisa,
reparo no modo como ele se escora no balcão, o tédio que tem no olhar,
as coxas grossas e os pêlos no peito que aparecem por conta da camisa de gola cavada,
eu te levaria para casa, petit garçon,
namoraríamos durante dois anos e viria te esperar todas as tardes, sentaria sorridente,
tu farias gracinhas e eu ficaria reparando no modo como rebolas e te insinuas
para mim
suspiro fundo, percebo que o tempo está a se fechar,
Vem chuva aí, diz um senhor que está sentado do lado de fora,
mais para si que para qualquer outro,
somos todos assim, uns solitários, vivemos constantes monólogos
um casal entra no café de mãos dadas, sorriem
como se o amor não acabasse e eles para sempre fossem se amar,
doce ingenuidade, bastará que numa noite de verão, ela cansada,
ele, cheio de libido e de machismo, se enfeze com um não,
Não, não vamos transar hoje, querido, tenho dor de cabeça,
e pronto, terá sido em vão os juramentos feitos ao padre e ao escrivão
tudo se finda,
aceitemos, os corpos apodrecem, as revoluções tornam-se autoritarismos,
o amor vai ficando pra depois,
as viagens, como todas, terminam,
como esta pequena e despretensiosa viagem
que fiz, sentado nesta mesa de café, num dia qualquer,
lembrando, pensando, querendo escrever esses versos
que só serão escritos horas depois, na minha casa,
e já não serão os versos certos, os que pensei,
serão outra coisa, outra viagem,
aqui o mar, mental, acaba e a terra, que é corpo, fica.
(C. Berndt - 13.10.2015)
desses tantos que há pelo centro de Floripa
talvez eu esteja sendo injusto, há, sim, algo de especial no Café Aroma,
um ''não sei quê'' de nostalgia, que me provoca uma saudade, uma melancolia,
lembro das então pastelarias
da baixa de Coimbra
sento-me perto da porta,
que é pra ver quem passa na velha e antiquada João Pinto,
rua a pintar todos dias um outro tempo, uma Floripa cada vez mais distante,
perdida e esquecida
pergunto se tem pastel de natas e o garçom olha-me como se tivesse feito
uma pergunta n'outra língua,
explico que pastel de natas é o mesmo que pastel de belém,
ele sorri mais contente, mas fecha a cara e diz,
Não, senhor, às vezes temos, mas hoje não,
Certo, dá-me, então, um pedaço daquela torta de limão
e uma média com leite, se faz favor
é estranho,
estranho ser estrangeiro na própria terra,
ser estrangeiro no meu país,
desde que voltei da minha viagem não fui capaz de me reencontrar,
e levo, todos os dias, na alma esse modo melancólico propriamente luso de ser,
olhar a vida, tomar café, ler o jornal e abrir os livros
o tempo, este aqui da João Pinto,
das ruas da parte velha da cidade, esta que ainda guarda
o ar, o aroma, de um passado que tem
cada vez mais a aparência dum fantasma,
é outro, outro tempo,
as pessoas caminham menos apressadas e não andam segurando smartphones,
talvez nem sintam azias, pós-modernas azias
gosto particularmente dos sebos, de entrar nesses lugares poeirentos,
cheios de livros velhos e revistas inúteis, e reparar na cara de quem ali
passeia, cruza os corredores a pensar na vida, nas angústias de cada dia,
a procurar pequenos gozos, singelas doses para a alma de ambrosia
o café já está frio, bebo-o mesmo assim,
afinal dizem que estamos em crise, é preciso economizar até mesmo nos cafezinhos,
sobre a mesa está o meu livro do Garrett, aquele das Viagens,
Viagens na minha terra
o garçom não conhece Garrett, repara no meu livro curioso, mas com olhar decepcionado,
de certo esperava que eu estivesse a ler outra coisa,
reparo no modo como ele se escora no balcão, o tédio que tem no olhar,
as coxas grossas e os pêlos no peito que aparecem por conta da camisa de gola cavada,
eu te levaria para casa, petit garçon,
namoraríamos durante dois anos e viria te esperar todas as tardes, sentaria sorridente,
tu farias gracinhas e eu ficaria reparando no modo como rebolas e te insinuas
para mim
suspiro fundo, percebo que o tempo está a se fechar,
Vem chuva aí, diz um senhor que está sentado do lado de fora,
mais para si que para qualquer outro,
somos todos assim, uns solitários, vivemos constantes monólogos
um casal entra no café de mãos dadas, sorriem
como se o amor não acabasse e eles para sempre fossem se amar,
doce ingenuidade, bastará que numa noite de verão, ela cansada,
ele, cheio de libido e de machismo, se enfeze com um não,
Não, não vamos transar hoje, querido, tenho dor de cabeça,
e pronto, terá sido em vão os juramentos feitos ao padre e ao escrivão
tudo se finda,
aceitemos, os corpos apodrecem, as revoluções tornam-se autoritarismos,
o amor vai ficando pra depois,
as viagens, como todas, terminam,
como esta pequena e despretensiosa viagem
que fiz, sentado nesta mesa de café, num dia qualquer,
lembrando, pensando, querendo escrever esses versos
que só serão escritos horas depois, na minha casa,
e já não serão os versos certos, os que pensei,
serão outra coisa, outra viagem,
aqui o mar, mental, acaba e a terra, que é corpo, fica.
(C. Berndt - 13.10.2015)
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
IV
Adormece o teu corpo com a música da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quere ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?
(Cecília Meireles em ''Cânticos'')
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quere ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?
(Cecília Meireles em ''Cânticos'')
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
pesares
o mundo pesa,
às vezes sinto-o pesar,
e como sou bobo,
peso junto dele.
e vamos os dois, pesados,
tristes muitas vezes,
o mundo e eu,
vivendo, morrendo e renascendo todos os dias,
em fogo, em água,
lágrima e amor,
há amor, ainda bem.
às vezes sinto-o pesar,
e como sou bobo,
peso junto dele.
e vamos os dois, pesados,
tristes muitas vezes,
o mundo e eu,
vivendo, morrendo e renascendo todos os dias,
em fogo, em água,
lágrima e amor,
há amor, ainda bem.
sábado, 26 de setembro de 2015
terça-feira, 8 de setembro de 2015
procuro
nesta noite incauta
fria
de margaridas congeladas no jardim
uma canção, um poema, uma palavra
um gesto
um passo
uma sílaba ou melodia
que me devolva o sossego
a paz que há uns dias perdi
folheio
livros e papéis velhos
há de haver algo aqui, um verso
uma lembrança, uma saudade
qualquer
sedativo
nenhuma das vozes habituais
pode
me consolar
nem Camões nem Pessoa nem Sophia
nem Florbela, minha amargura preferida
reviro-me
tento me despir dessa pele de gelo
e medo
que cobre meus pelos
uma dor
o inverno nos enganou
agosto foi quente e doce
muitos dias de sol e mudas de amor-perfeito
plantadas no vaso frágil da minha vida
mas veio setembro
e como são tempos demoníacos
tudo mudou e a luz da ternura se desacendeu
partiste
cometa de cauda longa
rastro luminoso
rota difusa
e corpo dissonante
suave serpente de libido sibilando prazer
e cá fiquei então
em pedacinhos
a tomar chá
sozinho
amando novamente como nunca quis
procuro
no silêncio robusto
desta noite invernal
os teus olhos o teu corpo o teu cheiro
frio é o inferno sem ti
estes versos
que são como vômito
escarro
ou pranto magoado de orgulho
não me consolam
nem fecham a ferida que abriste
sangrarei por muitos séculos
ainda
até que no maledicente céu das vivências
nasça outro cometa
e o meu corpo gelado e inerte acostumado
aos ventos e à ausência
desperte
em lava e gemidos
contente.
nesta noite incauta
fria
de margaridas congeladas no jardim
uma canção, um poema, uma palavra
um gesto
um passo
uma sílaba ou melodia
que me devolva o sossego
a paz que há uns dias perdi
folheio
livros e papéis velhos
há de haver algo aqui, um verso
uma lembrança, uma saudade
qualquer
sedativo
nenhuma das vozes habituais
pode
me consolar
nem Camões nem Pessoa nem Sophia
nem Florbela, minha amargura preferida
reviro-me
tento me despir dessa pele de gelo
e medo
que cobre meus pelos
uma dor
o inverno nos enganou
agosto foi quente e doce
muitos dias de sol e mudas de amor-perfeito
plantadas no vaso frágil da minha vida
mas veio setembro
e como são tempos demoníacos
tudo mudou e a luz da ternura se desacendeu
partiste
cometa de cauda longa
rastro luminoso
rota difusa
e corpo dissonante
suave serpente de libido sibilando prazer
e cá fiquei então
em pedacinhos
a tomar chá
sozinho
amando novamente como nunca quis
procuro
no silêncio robusto
desta noite invernal
os teus olhos o teu corpo o teu cheiro
frio é o inferno sem ti
estes versos
que são como vômito
escarro
ou pranto magoado de orgulho
não me consolam
nem fecham a ferida que abriste
sangrarei por muitos séculos
ainda
até que no maledicente céu das vivências
nasça outro cometa
e o meu corpo gelado e inerte acostumado
aos ventos e à ausência
desperte
em lava e gemidos
contente.
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
IL PLEURE DANS MON COEUR (Paul Verlaine)
Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville;
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur?
Ô bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits!
Pour un coeur qui s'ennuie,
Ô le chant de la pluie!
Il pleure sans raison
Dans ce coeur qui s'écoeure.
Quoi ! nulle trahison?
Ce deuil est sans raison.
C'est bien la pire peine
De ne savoir pourquoi
Sans amour et sans haine
Mon coeur a tant de peine!
Comme il pleut sur la ville;
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur?
Ô bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits!
Pour un coeur qui s'ennuie,
Ô le chant de la pluie!
Il pleure sans raison
Dans ce coeur qui s'écoeure.
Quoi ! nulle trahison?
Ce deuil est sans raison.
C'est bien la pire peine
De ne savoir pourquoi
Sans amour et sans haine
Mon coeur a tant de peine!
domingo, 30 de agosto de 2015
manhã de sol amena
e meiga
é teu rosto, o primeiro que vejo
quando abro os olhos
mar liso, ondulante
e lascivamente inocente
é teu corpo tão entregue a mim, seminu
e adormecido
nuvens brancas de paz e reconciliação
são os nossos lençóis
embrulhados
entre nossas pernas, sinto os teus pés, como são lisos
Primavera que chega e ilumina
o quarto com luzes descansadas
é o amor novo que me trouxeste
levanto-me devagar, o beijo demorado na tua boca
é fôlego para o meu dia
fica a dormir, querido,
quando for noite eu trarei lírios e te despirei
como quem limpa um frágil aquário
dentro de ti, em ti, nadarei
entre corais e medusas pacíficas,
teus pelos se arrepiam e eu estou quase lá
adormecidos
vamos andar de barco no grande rio do espírito,
tu tens os remos,
leva-me ao Mar.
e meiga
é teu rosto, o primeiro que vejo
quando abro os olhos
mar liso, ondulante
e lascivamente inocente
é teu corpo tão entregue a mim, seminu
e adormecido
nuvens brancas de paz e reconciliação
são os nossos lençóis
embrulhados
entre nossas pernas, sinto os teus pés, como são lisos
Primavera que chega e ilumina
o quarto com luzes descansadas
é o amor novo que me trouxeste
levanto-me devagar, o beijo demorado na tua boca
é fôlego para o meu dia
fica a dormir, querido,
quando for noite eu trarei lírios e te despirei
como quem limpa um frágil aquário
dentro de ti, em ti, nadarei
entre corais e medusas pacíficas,
teus pelos se arrepiam e eu estou quase lá
adormecidos
vamos andar de barco no grande rio do espírito,
tu tens os remos,
leva-me ao Mar.
domingo, 23 de agosto de 2015
Nuit nue
O, nuit nue,
Te regard avec mes yeux
viciés e ma visage
ennuyée
O, nuit sombrie,
Te veux avec mon âme
pleine de songe
que vibre encore
O, nuit irrémédiable,
te vois triste
mais je t'aime
même ainsi
O, nuit sans fin,
sans malheur
sans brille
calme et langueureuse
O, nuit longue,
que le vent t'insuffle
sa magie unique
dans son rugir
-- Hamilton Alves em ''O cão noturno''.
Te regard avec mes yeux
viciés e ma visage
ennuyée
O, nuit sombrie,
Te veux avec mon âme
pleine de songe
que vibre encore
O, nuit irrémédiable,
te vois triste
mais je t'aime
même ainsi
O, nuit sans fin,
sans malheur
sans brille
calme et langueureuse
O, nuit longue,
que le vent t'insuffle
sa magie unique
dans son rugir
-- Hamilton Alves em ''O cão noturno''.
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Os lírios brancos.
Os lírios brancos que vês nos campos,
Nos prados amarelados do Alentejo,
Onde vais aliviar teu espírito desenfreado,
Sou eu, o meu corpo,
A delicadeza que sou, a paz que vislumbro,
O amor que sinto por ti,
A morte que não é nada senão brisa que transpassa
E nos separa momentaneamente.
Nos prados amarelados do Alentejo,
Onde vais aliviar teu espírito desenfreado,
Sou eu, o meu corpo,
A delicadeza que sou, a paz que vislumbro,
O amor que sinto por ti,
A morte que não é nada senão brisa que transpassa
E nos separa momentaneamente.
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