Orpheus, de Franz Stuck

terça-feira, 31 de maio de 2016

NOITE SILENCIOSA

é a noite mais silenciosa que vi

passa por entre as folhas das árvores a névoa úmida e branca
das madrugadas


silencioso
lábios entreabertos
olhos marejados a fitar o Longe
o quão longe no passado eu ainda posso ir?
o quão posso viver eu ainda desse passado,
amargo e doce, como o melhor e o pior dos amores?

o vento segue rumo ao mar
a levar as nuvens e os meus suspiros
poderá ele te falar de novo da minha dor
e da minha insana saudade?

ainda é
teu rosto
pálido e belo como a mais terrível manhã de inverno
que reconheço no céu, nas nuvens, no horizonte

''tu não te cansas de esperar, Penélope?'' - diz-me
a hostil voz da consciência

e eu a ela respondo, tímido
e envergonhado:
esperar já não espero,
mas é à mortalha,
é à mortalha de palavras a quem permaneço fiel,
o que seria de mim, alma lusa,
sem o meu triste fado?


31/05/2016