Orpheus, de Franz Stuck

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Poeta das aves sem ninho.


quem me dera tirar sorriso
das palavras
quando a mim
elas já chegam cansadas,
cantando entardeceres,
mendigando doces e delicados suspiros.

-- pássaros,
que sedentos de sede
pousam à minha sombra,
bebem das minhas lágrimas,
e cantam para adormecer
a velha chama
que arde dentro de mim!

«Poeta das aves sem ninho...»
sussurram-me elas com dolência
e um condoído pesar de pálpebras.

Já é dia,
já é tempo -- o sol já vai dormir.

25/12/12

Além-dor.

não sei que bicho me mordeu,
nem que feitiçaria me tocou
- é sempre a mesma vontade magoada de tecer versos.

pequenos versos de algodão
-retalhos-
costurados à força numa manta roxa que nunca que se finda.

Manta esta que é meu capote,
meu guarda-chuva
e guarda-frio.
Meu passaporte às terras de Além-dor.

08/12/12

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

quem me dera ter
as asas das palavras-vento,
que sopram onde querem,
ao sul ou
a mais norte que se possa ir.

quem me dera
Deus me dar a leveza
e a perfeição das estrelas,
que também são palavras
- as mais ditosas e sinceras.

quem me dera ser o tudo
que se lê numa poesia,
gritar de tristeza sem ser triste.

Ser o mundo e suas sensações todas,
inteiras,
puras,
inconscientes e
belas.
Ah, a beleza que sorri sem vaidade.

- ser a chuva que chora e não sente dor,
o sol que arde sem se queimar,
o vento que suspira sem temer a tempestade!

quem me dera amar amando sem saber que se ama...
''amar perdidamente

aquele, aquém e toda gente''

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Compartilho aqui este magnífico conto de João Silvério Trevisan, que é uma verdadeira pérola literária, provocando-nos com indagações a respeito da vida, do amor, dos mistérios e da morte... Logo abaixo, já que se trata de ''provocações'', podem encontrar a interpretação do mesmo conto feita por ninguém menos do que Antônio Abujamra.


DOIS CORPOS QUE CAEM:


     Por simples acaso, dois desconhecidos encontraram-se despencando juntos do alto do Edifício Itália, no centro de São Paulo.
- Oi – disse o primeiro, no alvoroçado início da queda. – Eu me chamo João. E você?
- Antônio – gritou o segundo, perfurando furiosamente o espaço.
E, só pra matar o tempo do mergulho, começaram a conversar.
- O que você faz aqui? – perguntou Antônio.
- Estou me matando – respondeu João. – E você?
- Que coincidência! Eu também. Espero que desta vez dê certo, porque é minha décima tentativa. anos venho tentando. Mas tem sempre um amigo, um desconhecido e até bombeiro que impede. Você afinal está se matando por quê?
- Por amor – respondeu João, sentindo o vento frio no rosto. – Eu, que amava tanto, fui trocado por um homem de olhos azuis. Infelizmente só tenho estes corriqueiros olhos castanhos…
- E não lhe parece insensato destruir a vida por algo tão efêmero como o amor? – ponderou Antônio, sentindo a zoada que o acompanhava à morte.
- Justamente. Trata-se de uma vingança da insensatez contra a lógica
- gritou João num tom quase triunfante. – Em geral é a vida que destrói o amor. Desta vez, decidi que o amor acertaria contas com a vida!
- Poxa – exclamou Antônio – você fez do amor uma panacéia!
- Antes fosse – replicou João, com um suspiro. – Duvidoso como é, o amor me provocou dores horríveis. Nunca se sabe se o que chamamos amor é desamparo, solidão doentia ou desejo incontrolável de dominação. O que na verdade me seduz é que o amor destrói certezas com a mesma incomparável transparência com que o caos significante enfrenta a insignificância
da ordem. Não, o amor não é solução para a vida. Mas é culminância. Morrer por ele me trouxe paz.
Ante o vertiginoso discurso, ambos tentaram sorrir contra a gravidade.
- E você, como se sente? – perguntou João a Antônio.
- Oh, agora estou plenamente satisfeito.
- Então por que busca a morte?
- Bom – respondeu Antônio – me assustou descobrir um fiasco primordial: que a razão tem demônios que a própria razão desconhece. Daí, preferi mergulhar de vez no mistério.
- Sim, da razão conheço demasiados horrores. Mas que mistério é esse tão importante a ponto de merecer sua vida?
- Não sei – respondeu Antônio. – Mistério é mistério.
- Mas morto você não desvendará o mistério! – protestou João.
- Por isso mesmo. O fundamental no mistério é aguçar contradições, e não desvendar. Matar-me, por exemplo, é bom na medida que me torna parte do enigma e, de certo modo, o agudiza. Tem a ver com a fé, que gera energias para a vida. Ou para a história, quem sabe…
- Taí um negócio que perdi: a fé. Deus para mim… – e João engasgou.
- Ora – revidou Antônio vivamente. – A fé nada tem a ver com Deus, que se reduziu a uma pobre estrela anã de energias tão concentradas que já nem sai do lugar. Deus desistiu de entender os homems, e virou também indagador. Sem Deus nem Razão, a única fé possível é mergulhar neste abismo do mistério total.
- Mas para isso é preciso ao menos saber onde está o mistério – insistiu João com os cabelos drapejando ao vento.
- Ué, o mistério está em mim, por exemplo, que me mato para coincidir comigo mesmo. Mas há mistério também em você: seu morrer de amor é o mais impossível ato de fé. Graças a ele, você participa do mistério. Porque se apaixonou pelos abismos. João olhou com olhos estatelados, ao compreender. E Antônio, que já faiscava na semi-realidade da vertigem, gritou com todas as forças:
- Há sobretudo este mistério maior de estarmos, na mesma hora e local, cometendo o mesmo gesto absurdo e despencando para a mesma incerteza, por puro acaso. Além de cúmplices, a intensidade deste mergulho nos tornou visionários. Você não vê diante de si o desconhecido? É que já estamos perfurando a treva.
E como tudo de fato reluzia, João também ergueu a voz:
- Sim, sim. É espantoso o brilho do absurdo.
- E agora – disse Antônio bem diante do rosto de João – falemos um pouco da permanência. Você gosta dos meus olhos azuis?
Foi quando os dois corpos se estatelaram na Avenida São Luiz.




sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Via Láctea


Já que a noite é de poucas estrelas, calha bem este soneto do Bilac:

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

-Olavo Bilac-