Orpheus, de Franz Stuck

quarta-feira, 28 de março de 2012

Chão.

Ás vezes,
quando o céu se coloca assim,
com o sol a sorrir em seus raios
e o céu espalha-se por tudo e todos
                           [neste 'azul-limpo',
Eu,
eu até acredito que o mundo e seus dias
                    [são mesmo sempre bonitos
E que
não há dias de bruma de pranto sozinho
Que não há pouco
e nem Saudade.

Eu olho para o cimo das nuvens
e penso apenas que o que há,
que tudo que há,
é Luz.

Eu sigo pelo passeio e pelas calçadas cinzas,
o sol e suas franjas iluminam
onde piso,
os tijolos e os buracos,

o chão por onde corre o mundo.


segunda-feira, 26 de março de 2012

Polaróides Urbanas

Aí têm a cena de um filme que adoro. É um filme dirigido por Miguel Falabella. Trata-se de uma comédia, mas que possui muitos elementos dramáticos. Uma comédia com muitas inspirações da própria tragédia grega, como verão se assistirem o filme. Esta é a primeira cena do filme e como percebem, trata-se de uma encenação da clássica peça de Sófocles, Antígona, mas, como não poderia ser diferente, Falabella deu uma nova cara para 'Antígona' e nos leva do espanto ao riso, do riso ao espanto... Uma mistura excelente!



120...150...200 Km por hora

Há muito que escuto esta música. Gosto desta versão cantada por Marília Pêra, esta querida e telentosa atriz brasileira. Marília coloca tanto sentimento e dor em sua interpretação que me arrepio do início ao fim. Marília é muito mais atriz que cantora, por isso, trata-se muito mais de uma interpretação teatral da música. É preciso um gemido grego, 'euripidiano', pra entender e sentir tudo isto! Ai de mim!






As coisas estão passando mais depressa
O ponteiro marca 120
O tempo diminui
As árvores passam como vultos
A vida passa, o tempo passa
Estou a 130
As imagens se confundem
Estou fugindo de mim mesmo
Fugindo do passado, do meu mundo assombrado
De tristeza, de incerteza
Estou a 140
Fugindo de você
Eu vou voando pela vida sem querer chegar
Nada vai mudar meu rumo nem me fazer voltar
Vivo, fugindo, sem destino algum
Sigo caminhos que me levam a lugar nenhum

O ponteiro marca 150
Tudo passa ainda mais depressa
O amor, a felicidade
O vento afasta uma lágrima
Que começa a rolar no meu rosto
Estou a 160
Vou acender os faróis, já é noite
Agora são as luzes que passam por mim
Sinto um vazio imenso
Estou só na escuridão
A 180
Estou fugindo de você

Eu vou sem saber pra onde nem quando vou parar
Não, não deixo marcas no caminho pra não saber voltar
Às vezes sinto que o mundo se esqueceu de mim
Não, não sei por quanto tempo ainda eu vou viver assim

O ponteiro agora marca 190
Por um momento tive a sensação
De ver você a meu lado
O banco está vazio
Estou só a 200 por hora
Vou parar de pensar em você
Pra prestar atenção na estrada

Vou sem saber pra onde nem quando vou parar
Não, não deixo marcas no caminho pra não saber voltar
Às vezes, às vezes sinto que o mundo se esqueceu de mim
Não, não sei por quanto tempo ainda eu vou viver assim

Eu vou, vou voando pela vida
Sem querer chegar

Composição:  Roberto Carlos e Erasmo Carlos 



domingo, 25 de março de 2012

Nada pra mim - Zizi Possi


Zizi Possi, ao lado de Bethânia e Elis, uma das melhores intérpretes brasileiras. Zizi canta aqui uma canção posta por John Ulhoa, músico e produtor brasileiro e integrante da banda 'Pato Fu'.Conheço a música há algum tempo e dentre todas as interpretações que ouvi, a versão que mais gostei foi esta cantada por Zizi. Tem sido a minha música de chuveiro há alguns dias!~



sexta-feira, 23 de março de 2012

Florianópolis e seus 286 anos.

Hoje, Florianópolis, a minha querida e saudosa cidade, completa 286 anos.
Disponibilizo aqui um documentário feito pela TV Barriga Verde em 2009, quando Floripa completava 283 anos. Tudo que é dito no documentário ainda é pertinente e atual, por isso considero válido publicá-lo aqui.

O documentário focaliza na visão que pessoas simples e nativas da ilha têm de sua cidade, contrapondo a tradição e costumes tradicionais com  o progresso turístico  e urbano que a capital catarinense vem enfrentando.

Enfim, Florianópolis não é perfeita, mas também é de muitos amores... Senti saudade, confesso, e até me emocionei ao ver cenas de lugares que conheço tão bem.

Aí têm:


O documentário está dividido em três partes, aqui só vos disponibilizo a primeira parte. Podem continuar assistindo no Youtube.  Recomendo, principalmente, a terceira parte, onde fala-se dos mitos e lendas da ''ilha da magia'', que já são herança dos imigrantes portugueses-açorianos dos meados do século XVII e XVIII. 





Imagem do sul da ilha de Florianópolis, ao fundo vê-se as casas ao estilo açoriano. 



quarta-feira, 21 de março de 2012

21 de março.

À Poesia e às Árvores.
Ambas alçam-se para o céu.
A árvore de braços abertos esperançosos boceja nuvens limpas.
A Poesia cai pesada como nuvem preta de chuva.

Filhas da Esperança.
Uma quer respirar - verde e para cima.
A outra, só suspira - de dentro para não sei onde.

Há muitas árvores no caminho - por onde passamos.
Há versos caídos no passeio, maduros e roxos.

Da vida, passam-se pelas árvores e pelos versos
- fica o sopro. Poético. Do vento.



Dias.

dias, dias...

Eles sempre vêem, os dias.
Nascem, enlaçam-se, desenlaçam-se,

desfiam-se,

correm e fogem.

Dias de fugas - eles existem.
Dias de pouco sol dentro da gente - também existem.

Dias que só querem chorar,
dias que a janela só vê as lágrimas da chuva.

Os dias se vão também - claro.
Vão e pouco querem saber
se a gente não quer ir.

Eu, por mim, voltava para aqueles dias,
em que o sol parecia que brilhava mais
e eu saía aí solto pelas ruas velhas de Coimbra

e nem reparava nas velhas, nos lampiões, nos candelabros.
 Os meus dias têm candelabros e velas - como numa novena.

Os meus dias dormem e acordam sob a luz de uma candeia triste - sem sol e sem você.

Só Saudade e dias.

À noite sonhei contigo

sonhar, sonhar...


terça-feira, 20 de março de 2012

Queer as folk

Eu sempre volto à Queer as folk.
Essa série marcou um período da minha vida, sempre que a vejo, um ou outro episódio, me sinto transportado para um tempo em que eu era tão mais romântico e acreditava em um mundo mais brilhante, um mundo diferente da forma como o vejo atualmente.
Seja como for, Queer as folk é incrível, é uma obra de arte, uma prova que, vez ou outra, surge algo realmente bom entre as tantas porcarias que surgem no cinema e na Tv norte-americana.



Ontem, já de madrugada, eu estava reassistindo um episódio da série e me emocionei com esta cena que deixei-vos a cima. Depois de tanto tempo, Queer as folk ainda me surpreende. Como esta, existem muitos outros momentos na série, talvez  até mais bonitos e mais marcantes. Mas, foi esta a cena que me tocou e me fez ter vontade de vir aqui, dividi-la com vocês.


segunda-feira, 19 de março de 2012

Tentativa

Uma flor de silêncio
sela minha boca.
Um peso de chumbo
aprisiona os meus gestos.
Só o voo dos meus olhos
te persegue
e tenta
trazer-te até mim.

Poema de Luísa da Costa in ''A maresia e o sargaço dos dias''.

Vênus.

Há um brilho agigantado no céu.

Há tantos dias
olho para o céu e te vejo aí, ó brilhante Vênus.
Orbe das liras e da deusa Afrodite,
perfumado, lilás e lampejante,
quieto e sorridente.
Místico, como são os amores.
Olho-te e mil coisas me ocorrem,
volto a pensar nele e imagino o futuro,
ao seu lado.
Ó, lindo astro, o tempo será indulgente
para comigo e meu amor?
Será que ele,
longe onde está,
também olha para o céu, para ti,
e sente Saudade dos meus olhos?
Brilhas e reflectes, encantado Orbe,
na margem da minha mágoa,
onde correm e param as águas do rio das minhas lágrimas. 

domingo, 18 de março de 2012

Talvez.

O sol  vai se pondo.
As ruas vão se estendendo em sombras,
 magras e compridas sombras.
A luz tão indulgente
do dia marcha para outro lado,
vai deitar-se.
Os meus olhos esperam pela noite,
pelas estrelas.

Eu dei pra essas coisas agora,
pensar demais em estrelas, planetas e constelações.
Por quê?
Bom, a Terra é pesada
e os meus olhos, já pesados, querem algum sonhar,
mesmo que distante,
em insondáveis luzes da galáxia.

O céu, as nuvens e as estrelas
fazem-me mais acreditado nas coisas,
esperançoso, talvez.
Dão-me a ilusão
de que existe sentido para coisas que não entendo.

O sol já foi embora.
Minhas mãos gelam
e já não podem escrever.

Sim, é o momento de se iniciarem outros dias.
Talvez, sejam estes que virão
dias de menos luz,
menos céu e menos fantasia.

E por isso, quem sabe quem sabe,
estes dias venham a ser mais meus.


terça-feira, 13 de março de 2012

No autocarro.

Hoje, meu amor, o que vivemos,
por vezes, me parece já um esboço de felicidade
empoeirado pela poeira dos meses.
Mas,
basta-me fechar os olhos pr'a sentir
tudo outra vez -
a tua boca;
as tuas mãos;
os teus ombros brancos;
os teus pêlos...
E ah, por vezes creio que até ouço a tua voz!

Ainda há espaço para uma lágrima,
esta que é irmã da minha mágoa.

O autocarro voa pelo Alentejo
e atravessa os meus sonhos.

As paragens... Tu ainda não voltaste.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Florbela

Um filme de Vicente Alves do Ó.




Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino, amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca in Livro de Mágoas

domingo, 11 de março de 2012

silêncio,


este tem sido o meu grito de agora.

silenciar-se,
com ''s'' pequeno de humildade,

Pra dizer, na língua do vento,
que há momentos que precisam
ser ditos de outras formas que não pela voz.

Pensamento.







quarta-feira, 7 de março de 2012

Insônia, Pensamentos e versos de Florbela

     


        Depois de acordar no meio da noite e de tentar frustradamente voltar ao sono, decidi levantar-me e fazer algo de útil. Lembrei-me de um professor que disse a uma amiga, certa vez que ela reclamava da falta de tempo, ''O que você faz da meia noite até às seis da manhã? Aproveite seu tempo!''
Bom, não sou do tipo que joga horas de sono ao vento, muito pelo contrário, eu tenho certa veneração pelo sono, é algo extremamente sagrado para mim, gosto de dormir e mais ainda, gosto dos sonhos! Enfim, além de ser humanamente necessário, o sono nos permite sonhar, nos permite tirar  a nossa cabeça por algumas horas deste mundo tão turbulento, turvo e barulhento!
          Eu vos falava da minha insônia... Pois bem. Levantei-me e estava decidido a fazer ''algo de últil''. Geralmente, eu vou ler algo, algum texto ou livro da faculdade... No momento estou com três livros sobre a cabeceira....  A ''Ilíada'', decidi que preciso relê-la há algumas semanas e essa necessidade precipitou-se porque estou a escrever um conto que envolve acontecimentos no período da guerra de Tróia, portanto, a Íliada é uma das melhores fontes, sem falar que é uma das mais belas e encantadoras obras poéticas ocidentais... Enfim, quando começo a falar de Homero e da Grécia, eu praticamente babo, melhor parar por aqui... Falava de três livros, certo? Os outros dois são ''A Jangada de Pedra'' de José Saramago, já que estou decidido a escrever sobre algo que me tem causado muitas dúvidas há algum tempo, trata-se, na verdade, de uma 'oposição' que uma professora me fez pensar certo dia: 'Lusofonia x Iberismo''... Falar da península Ibérica pressupõe José Saramago, é claro! Esse tema surgiu em uma aula de Cultura Portuguesa, que por sinal eu adoro, falávamos das relações culturais que Portugal mantinha com o Brasil e com os países africanos de língua portuguesa, isso nos fez falar de ''Lusofonia'', ''Acordo Ortográfico'' e todas essas polêmicas que estão na moda... Em seguida, o assunto passou a ser o poeta Miguel Torga e seu ''Iberismo assumido'', pra quem não sabe, Torga defendia que Portugal devia procurar semelhanças com sua gigante vizinha, a Espanha, e não com os ''trans-atlânticos'', os brasileiros. Tudo isso para vos dizer que o terceiro livro que está na minha mesinha de cabeceira é ''Poemas Ibérios'' do Torga.... Mais isso tudo são parênteses, pois o pretendido era e ainda é, falar de um quarto livro... O livro que fui ler para ''fazer algo de útil''!
           Raios! Eu já me perdi e falei demais!  Bom, quero este texto assim, mesmo que possa parecer confuso, ele é o fruto desta minha 'madrugada-manhã' de ''pensos-pensamentos'', pensamentos que estavam dependurados, quase como cabides, no guarda-roupa da minha mente. Enfim, delírios e metáforas à parte, eu comecei escrevendo isto para contar-vos sobre o que eu queria fazer de últil.... Sem grande supresa, eu fui ler o livrinho de capa roxa que também tenho na minha mesinha, ele chama-se ''Poesia Completa de Florbela Espanca''. Florbela é a poeta dos meus suspiros, é uma espécie de alma/aura/diva inspiradora! Quando vou ao Mondego, sentar-me na beira do rio nos dias de sol, são os versos de Florbela que leio.... Esta poeta de alma roxa, pálida e de ''fantásticos cansaços'', como ela própria diz, me fascina... Florbela é depressiva, vá lá, mas eu só a leio quando quero mesmo sentir o meu coração espremer-se, contrair-se, quando quero sentir algo ''shakesperano'', algo extremamente  humano e ''à la Hamlet''... Neste momento, talvez, ficasse bem um gemido grego, daquelas lamentações que só encontramos em Eurípedes! O jornalista/entrevistador do Programa ''Provocações'' da TV Cultura, Antônio Abujamra, é quem sempre diz: ''Só mesmo um gemido grego para começar este programa.... Talvez devesse eu aqui dizer: ''Só mesmo um gemido grego para entender Florbela....''

           Eu iria fazer um post somente para falar que li alguns versinhos de Florbela Espanca, mas acabei quase escrevendo uma ''Epopéia''.... Na verdade, por falar em Florbela Espanca, me cabe ressaltar que amanhã, dia 08 de março, Dia Mundial das Mulheres, estréia cá em Portugal um filme que representará justamente a vida desta extraordinária poetisa portuguesa. Pretendo ver este filme logo, estou ansiosíssimo!
Algumas informações sobre o filme podem encontrar aqui: http://bibliblogue.wordpress.com/2012/03/01/florbela-o-filme-estreia-a-8-de-marco-condicoes-especiais-para-as-escolas/

         '' Então, pronto!'' - Gosto desta expressão, que é usada, geralmente,  cá em Portugal, terra de Florbela e também onde moro há um ano e meio,  quando se quer encerrar uma conversar. ''Pra já, é isto!''
Espero que o texto não tenha sido assim tão enfadonho e possa enriquecer-vos de alguma forma, nem que seja para rir do meu ''disparate'' ou procurar ler um pouco mais sobre Florbela Espanca...

Deixo-vos uns versinhos da ''poetisa dos magoados'':

''A lembrança do teu beijo
Inda na minh'alma existe,
Como um perfume perdido,
Nas folhas dum livro triste.

Perfume tão esquisito
E de tal suavidade,
Que mesmo desapar'ido
Revive numa Saudade!
 -  ( Espanca Florbela. ''Cantigas leva-as o vento...'' in Trocando Olhares)


Bom dia!

Desejos vãos

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!
.
Eu queria ser o Sol, a luz imensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até a morte!
.
Mas o Mar também chora de tristeza ...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!
.
E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras ... essas ... pisa-as toda a gente! ...

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

terça-feira, 6 de março de 2012

Cair.

Cada um dos meus dias possui uma música.
Eu não as escolho, elas 'caem-me',
como me cai a chuva,
as folhas
e a saudade.

domingo, 4 de março de 2012

Coruja.

Não o incomodem.
Ele está dentro de sua casa! - diz uma velha corcunda
 que passa na rua, vestida de negro e de amarguras.

- Ele está triste. Não quer vê-los! - diz um menino sentado à beira do passeio
que brinca tristonhamente com suas bolinhas de gude.

- Ele foi dormir... Diz que não quer pensar. - diz uma mulher sentada na margem do rio,
ela bate com as roupas na água e canta para espantar as mágoas e a saudade.

- Ele não está! - diz, finalmente, uma doce menina na calçada da porta.
Eles insistem. Ela pisca os olhinhos, esfrega-os e sussurra baixinho:

''- Deixem-no dormir, foi procurar a Esperança nos sonhos!''

Convencidos, eles vão embora.

E de noite, quando tudo está quieto, a floresta dorme e os homens ressonam,
Ele se levanta, abre a janela e ouve, em alguma árvore próxima,
uma coruja dizer-lhe na sua língua de pios:

''A noite é solidão, é solidão, é solidão....''



sábado, 3 de março de 2012

Tu és.

Tu és um sol triste
             que se põe todos os dias
na tarde fosca da minha mágoa.

És como uma doce e mítica canção;
cantada e dançada pelos faunos
em torno das fogueiras antigas,
no interior das florestas,
escutada outrora pelas ninfas
que eram atraídas pelo calor
                            das línguas de fogo
e pelas vozes masculinas.

Tu és também céu, lua e estrelas,
pois é lá que muitas vezes te procuro.
És as frases bonitas dos livros que leio,
os olhos vivos dos personagens dos filmes,
o perfume que sinto nas árvores,
a voz dos pássaros.

Vez ou outra,
te encontro também,
onde antes sentava contigo,
quando íamos ao parque,
quando andávamos por aí
- juntos e sem saber direito pra quê
e pra onde.

Tu ainda és a luz que procuro,
As mãos que ainda sinto a tocar-me - sonhando.
Tu és o anfitrião dos meus planos,
o companheiro, o amante, o meu querido.

E mesmo que me cantem os outros,
que eu ouça aqui e acolá,
um ou outro me dizer
                qualquer palavra de encanto,
ainda assim,
são os teus olhos - e a tua voz
que me acometem
e me dizem que eu ainda quero - e não desisti -

de ser todo teu.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Algibeiras



Andando assim,
de mãos nos bolsos,
olhei quieto para o céu, como sempre me vejo fazer.

Gosto. Gosto de ver o azul do céu
 diluir-se, desfiar-se, pouco a pouco,
tornar-se estrelas, lua e cometas.


Cometas,  constelações,
desenhos estes que inventaram os gregos, 
os povos do Nilo, os antigos. 

Quiçá. 
Quiçá estas gravuras imaginárias
 digam mais de mim do que suponho
 e sonho...
 De mim, de ti e de nós...

Que sei eu de cometas e luzes 
e buracos negros?
Pouco.
Mas sei que estão também dentro de mim.

Que sei eu de futuro e de mãos?
Faltam-me.
Faltam-me outras mãos,
amigas, 
que me tirem cá das algibeiras;
Dos sonhos e talvez do céu.