Orpheus, de Franz Stuck

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Porque 20 de outubro é dia do poeta:


SER POETA 


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


(Florbela Espanca in ''Charneca em Flor'')

sábado, 18 de outubro de 2014

MEDO

é da noite que mais tenho medo

os fantasmas os rostos
o passado inteiro com seus dentes caninos mais afiados
o balançar sombrio e repentino da cortina escura, cheia de poeira
as frestas na janela
a coruja poisada no garapuvu piando como se sentisse dor,
a minha dor

tudo isso, sabe,
é que me mete medo

me dá uma vontade doida e infantil
de meter a cabeça de baixo do travesseiro
e chamar pela minha mãe,
que a essa hora já dorme o seu sono tranquilo de mãe

é um medo de olhar sem medo
encarar frio e corajosamente
o que em mim ainda pia, lateja, goteja mágoa,
traz saudade ou ódio,
ou às vezes simples ânsia,
não me pergunte de quê, é uma ânsia ânsia,
indescritível ânsia
que a mim faz todo sentido

veja bem, nem sei bem
do que é que tenho medo
mas conheço bem o que amo
e o que abomino,
conheço bem a cara que pintei
para mostrar e sonhar as coisas belas
e esquecer e denunciar as terríveis

mas pronto,
tenho medo é de não ser livre,
eu acho,
mas quem é livre mesmo, afinal?

a coruja parda é mais livre do que eu, certamente!
quais dores dormem em seu peito sensível coberto de penas?

dona coruja dos olhos de lua,
estou cheio de pena,
de medo
e de algum amor para dar também,

amor para dar, entrega garantida,
ao homem que passar e me encantar
com suas nádegas gestos humildade

não tens pena de mim, das minhas dores,
deste homem que me amará e um dia
me dirá adeus?

ou serei eu, de novo, que me irei embora?

é da noite,
de todas essas sombras confusas e dissimuladas,
desses pios, dessas palavras que não valem nada,
dessa vontade de traduzir desejo sexo amor saudade dor e tudo
com alguns versos,
que mais tenho medo!

tenho medo de mim
do que em mim vive
do que sobrevive aos ácidos  dos dias
do que morde encanta liberta
e assusta

sobretudo quando termino de escrever um poema destes,
puro nonsense cheio de sentido!

tenho medo medo

é de mim, dona coruja dos olhos inocentes,
que mais tenho medo!


sábado, 11 de outubro de 2014

fim de tarde,

o sol como um menino tímido
de cabelo amarelo
escondido atrás do Cambirela,


rua escura e vazia,
lajotas tortas,
caminho feito de pedras e de um perpétuo ontem,

uma garça que voa pr'a não sei onde,
as suas penas brancas
foram a única bandeira de paz
que vi neste dia
de pouco sorriso.