Orpheus, de Franz Stuck

domingo, 29 de janeiro de 2017

FIM.

foi na última estação que eu escrevi um poema
meu último poema
era frio e eu pensava em ti
nem o vinho desviava meu pensamento maldito de ti
e tu cantarolavas fados e brincavas com teu zippo
entre os dedos
o meu amor e a tua soberba de ariano
mas já fazia tanto tempo
e eu estava na minha ilha e tu eras uma lembrança
abutre à espera do meu cadáver
o meu coração, como o do pobre menino Luís XVII de França,
naquela época,
em plena revolução e tristeza, se arrancado de mim,
talvez resistisse também petrificado
ou imerso num recipiente de álcool e palavras
mas hoje é verão
chove, mas é verão
e meu coração
está livre e leve
andorinha feliz sobre o céu de Garopaba
água limpa que corre do morro e beija o mar
a boca de um jovem pescador
filho do litoral, mãos de rede
a limpar-me dos olhos o sal
a dor
é verão, é verão
e eu não te espero mais, D. Sebastião,
morreste no areal
e eu sorrio e dumo sem pesadelos e saudades
sou porto, praia e silêncio,
essas palavras representam o fim
o meu corpo não é mais uma nau.

C. Berndt
29/01/2017.