Orpheus, de Franz Stuck

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Desertos

Infinitas vezes a Terra girou em torno de si.
Infinitas vezes vieram as estações e se foram.
Infinitas vezes passaram-se os dias, os meses e os anos.
Sim, já lá se vai algum tempo.


E depois de tanto andar,
de me iludir e por vários corpos passear,
dou-me conta de que, ao fim e ao cabo,
regresso sempre ao mesmo lugar,
dou voltas e voltas e tudo o que encontro
é este 'inferno de amar'.

Estou em meio ao mar,
numa noite sem estrelas,
completamente só, dentro de um barco vazio
a balançar.
No corpo frio do oceano, refletido e estampado,
como uma maldição, enxergo o teu rosto,
pálido e terrivelmente belo.

Então esfrego os olhos
e a verdade surge como a luz de todos os dias:
permaneço no deserto para o qual me trouxeste
e de onde nunca, nunca mais saí.
Tudo o que tenho vivido são miragens.
Aqui, só há ilusão.

Sob este areal, jaz sepultado o meu coração.
Alcácer-Quibir nunca terminará.
Eu sou Dom Sebastião.

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