Orpheus, de Franz Stuck

sexta-feira, 21 de julho de 2017

''A vontade de escrever vem de um desejo de reformular a realidade, a realidade em que se vive.'' - J.K. Rowling.






Imagem do livro Harry Potter: The Creature Vault, disponível no link: http://designontherocks.blog.br/livro-revela-artes-conceituais-de-criaturas-de-harry-potter/

domingo, 21 de maio de 2017

poema.

a folha em branco
me é um desafio
porque quero preenchê-la
fraturá-la
com minhas palavras
drásticas
dessacralizar o seu branco plácido
e virgem
manchá-la
acariciá-la com minha pele
sôfrega
arrancar de seu corpo branco gemidos brandos
e libertadores
só gozaremos
- o papel e eu -
quando enfim nascer
maldito
ou bendito
um poema
ainda que torto, roto, torpe
sem sorte
poema a falar da dor e da morte
de fazer assim um poema
sem tema
que pena
estragado estratagema
ovo sem gema
deixa, deixa
eu sair de casa
sobre o papel uma apostema
que queima, queima

veja a rua, a chuva já foi embora
sem teima
saiamos de casa
vamos, pois, ao cinema!

sábado, 20 de maio de 2017

06/05/2017

Quando estiveres em tua sacada,
Ouvindo a noite, como dizes,
Quem sabe me ouças no vento
Ou no pio de alívio de uma coruja ouriçada
sejas capaz de ouvir meus gemidos quentes e incompreensíveis.
Talvez tu encontres o caminho da minha boca
no sereno das duas horas, as horas ocas,
uma gota grossa de chuva
a escorrer pelo beirado e a tocar ansiosa tua nuca.
Quem sabe, quem sabe,
No fim desta madrugada que morre afoita
Em tranquilos suores, tu encontres
Os líquidos vivos do meu corpo
A escorrerem da umidade da palmeira
Que treme de prazer quando é tocada
pela luz masculina do sol que já se anuncia.


C. Berndt

terça-feira, 25 de abril de 2017

quantas palavras são ditas através de um silêncio?
quantos versos, quantos poemas
fazem-se enquanto eu te fito, tu me fitas
abraçados um ao outro
caindo, descendo, dançando como dois cometas pela periferia da Via Láctea...


O NOSSO MUNDO

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Poisando em ti o meu amor eterno
Como poisam as folhas sobre os lagos...

Os meus sonhos agora são mais vagos...
O teu olhar em mim, hoje, é mais terno...
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

A vida, meu Amor, quer vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?...
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?...
O mundo, Amor?... As nossas bocas juntas!...

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

quarta-feira, 19 de abril de 2017

19/04/2017

transpiro-te
ainda
sim, transpiro-te
sinto-te na minha pele
a entrar-me e a sair-me pelos poros
no ouvido o barulho dos beijos
ainda
e o perfume
a ambrosia, o vapor
seguindo-me
grudados em meu corpo
meu corpo breve e frágil a fugir da chuva

*

depois de um copo d'água
no apartamento ainda escuro
vazio e silencioso como um templo
fecho os olhos
e vejo, como dois lumes, teus olhos
teus lindos olhos
duas estrelas castanhas dos confins da Via Láctea
a encher-me de luz nova
sou Saturno sem anéis a girar em torno de ti

*

talvez não façam dez minutos
desde que nos despedimos
sim, dez minutos atrás eu beijava tua boca
tocava tua pele
e sentia que o próprio Apolo invejava-nos
a chuva fina são suas lágrimas finas a pensar em Jacinto, pois
mas o deus da luz, que é também o deus da Cruz,
não tem espaço para ressentimentos em seu puro coração
por isso segue-nos com os olhos
e sorri feliz toda vez que chego em casa
absorto, embriagado de paixão

*

ofereço-te por fim
omoplatas sobre uma mesa de vidro
dentro delas, violetas e gerânios,
as minhas flores prediletas
as mesmas que apanho tarde da noite nas campinas tardias
e distantes
por onde vagueio sempre em silêncio
metamorfoseado em coruja, lobo ou borboleta da lua, certamente
sim, ofereço-te este singelo e sibilino jardim
que é meu corpo, minha mente
e quiçá minha alma, amado e dileto delfim!

C. Berndt.









sexta-feira, 31 de março de 2017

31/03/2017

Da minha janela eu vejo o céu
azul
azul placentário
azul celestial, de certo o mesmo céu abençoado
e terrível dos desertos em que se perdem e se encontram
os peregrinos, azul de liberdade e perdição
então

azul, azul distante
que me leva para fora e dentro de mim
quando eu só queria casca de árvore
gosto de maçã
beijo bom demorado
os teus olhos amendoados
sem ventos
só a leve brisa da tarde
a balançar em calmaria
uma cortina, uma manhã,
uma descomplicada fantasia.

30/03/2017.

o calor do vinho
faz dois homens terem vontade de desabotoar a camisa
e abrir a janela
e olhar o mar
as estrelas brilhantes que não existem
e ainda brilham
mãos que se apertam
e olhos que se despem
em ternura e silêncio
mesmo ainda os que não se conhecem
são cometas quentes e ferventes
a entrar na órbita morna
da Terra
levantam de ar correntes salinas
que desvelam suspiros de ontem
fortes e contentes.

C. Berndt


domingo, 19 de março de 2017

pudera
sermos tão livres como nos sonhamos
o mundo quiça fosse menos duro aos nossos olhos
infantis e limitados

mas não haveria justiça
o mal sobrepor-se-ia ao bem
o egoísmo engoliria o amor, fonte da vida,
energia criadora, balança e face de Deus

a vida que te parece hoje injusta é
antes
fruto doutras eras, doutros passeios que fizeste
anteriormente na matéria

semeia luz, planta caridade
e acharás o caminho do Oceano
onde viverás tua eternidade

mira com Amor então o Sol
e divide-o com teus irmãos
liberta-te das sombras
segue o curso do rio
esquecendo as margens das candeias confusas
e efêmeras.

C. Berndt
19/02/2017

sábado, 18 de fevereiro de 2017

ao fim e ao cabo,
noites que pareciam ter passado
retornam,
com seu mel e todo seu fel


Saturno brilha no céu a me dizer
que o tempo é irrecuperável

não há nada para se buscar no passado
e o futuro, escuso e distante,
é sufocado por um presente quieto
e cheio de chá camomila

quando eu queria dançar sem medo
sob a chuva
ou me queimar no sol
só pra sentir o alívio de um banho frio.

C. Berndt
18/02/2017

domingo, 29 de janeiro de 2017

FIM.

foi na última estação que eu escrevi um poema
meu último poema
era frio e eu pensava em ti
nem o vinho desviava meu pensamento maldito de ti
e tu cantarolavas fados e brincavas com teu zippo
entre os dedos
o meu amor e a tua soberba de ariano
mas já fazia tanto tempo
e eu estava na minha ilha e tu eras uma lembrança
abutre à espera do meu cadáver
o meu coração, como o do pobre menino Luís XVII de França,
naquela época,
em plena revolução e tristeza, se arrancado de mim,
talvez resistisse também petrificado
ou imerso num recipiente de álcool e palavras
mas hoje é verão
chove, mas é verão
e meu coração
está livre e leve
andorinha feliz sobre o céu de Garopaba
água limpa que corre do morro e beija o mar
a boca de um jovem pescador
filho do litoral, mãos de rede
a limpar-me dos olhos o sal
a dor
é verão, é verão
e eu não te espero mais, D. Sebastião,
morreste no areal
e eu sorrio e dumo sem pesadelos e saudades
sou porto, praia e silêncio,
essas palavras representam o fim
o meu corpo não é mais uma nau.

C. Berndt
29/01/2017.