Orpheus, de Franz Stuck

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

o tempo come

come os dias com uma voracidade
que assusta
come como uma criança recém-nascida
louca pelo seio da manhã
que está cheio de leite
come como uma fera
que não vê carne há três dias
come avassaladoramente
como o sol que engole sem pena os meteoros
que correm para o seu abraço
come como a mulher do pipoqueiro
que não cabe mais em seu vestido verde
come como hiena desmemoriada
come como um cardume de piranhas
come como a ferrugem
que mata o pulmão dos homens
come como um monstro
cuja garganta é um poço negro sem fundo
come como o escuro
como os medos e
como a noite dos lugares ermos
come como os grasnidos de um lobo
e os assobios de um rouxinol
come como o lamento de um fado
e o suspiro lento de uma viúva

come, enfim, como os versos que o corvo me traz!

o que o tempo não come?
o tempo come tudo,
os corpos, as mentes,
o passado, o presente e o futuro
come o que homem quer
e aquilo que despreza
come a sua memória
e o seus sonhos perdidos...

só não come a si próprio,
só isso o tempo não come.
Não come a si próprio
porque não é mais que um buraco,
um lugar fundo e sem fim
um sopro duro de nada
que é quase quase
o tempo é quase
tudo.

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