Orpheus, de Franz Stuck

quarta-feira, 15 de julho de 2015

NOITE DE CHUVA - Florbela Espanca.




Chove na noite fria da ilha da magia. Oiço, dentro de mim, uma voz, quente e delicada, velha conhecida, amiga minha e das palavras:


NOITE DE CHUVA

Chuva... Que gotas grossas!... Vem ouvir:
Uma... duas... mais outra que desceu...
É Viviana, é Melusina a rir,
São rosas brancas dum rosal do céu...


Os lilases deixaram-se dormir...
Nem um frémito... a terra emudeceu...
Amor! Vem ver estrelas a cair:
Uma... duas... mais outra que desceu...

Fala baixo, juntinho ao meu ouvido,
Que essa fala de amor seja um gemido,
Um murmúrio, um soluço, um ai desfeito...

Ah, deixa à noite o seu encanto triste!
E a mim... o teu amor que mal existe,
Chuva a cair na noite do meu peito!

Florbela Espanca, em ''Reliquiae'', 1934

Nenhum comentário:

Postar um comentário