Orpheus, de Franz Stuck

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

(des)encontro

talvez um dia te encontre, por aí
há de ser um reencontro, contigo e comigo próprio


tantos séculos depois, quase nem acredito, little boy,
aquela separação ainda me dói

desde miúdo te sinto, amigo etéreo
abraças-me invisível e eu te quero
sentir
com esse meu corpo incerto
essa gaiola, máquina, concha
olho para o céu, lembro do Ícaro que fui e ainda me desespero

talvez um dia tudo isso ganhe uma outra cara
outro tom ou forma-desejo
bem poderias vir aqui, possuir, alma austera,
aquele rapaz bonito da esquina e me dar um beijo de matéria

ok, estou a ouvir:
o espírito
a consciência
o éter
a leveza
a caridade
o mundo verdadeiro, não o das cópias e aparências,
eu sei...
a espera, a espera

quando eu era miúdo
eu já te sentia, sabia quem eras
a saudade sempre me foi essa coisa grande,
voraz, tristeza de alma e um andar sem força nas pernas

hoje eu vi nuvens branquíssimas
rumando com calma para o sul, algum lugar azul
ah, como eu quis ser elas

e no lago idílico
eu tentei ver meu rosto,
nada vi, nada vi
eu não sou esse corpo

o dia termina e eu vou dormir
a pensar que enquanto não chegas
que enquanto não parto
eu aqui fico
a mentir
a morrer
a tentar, por delicadeza, o pão e a bondade dividir
a esperar que a aurora me descubra
e seja, amigo,
o fim, o fim desses estranhos milenares conflitos

ainda que 
tudo isso seja bonito
devido ao nosso (des)encontro infinito!

***

C. Berndt
29/11/2015


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