Orpheus, de Franz Stuck

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

por estes mares tantas vezes navegados...

dormes delicado
profundamente
os teus suspiros materializam-se e tocam minha epiderme
os teus lábios semiabertos pedem-me, mesmo estando entregue a Morfeu,
um beijo de amor


dormes sobre os meus lençóis
entregas o teu corpo a mim
ao meu deleite e ao meu cuidado
não diferente do que faço, entregando-me, deixando-me
perder no mar vasto que és tu

e como nauta
Vasco da Gama pós-moderno
sigo por estes mares tantas vezes navegado
ciente de que logo ali, em frente
posso esbarrar
no Adamastor amargurado

mas que seria eu
que tipo de homem seria
se deixasse de navegar simplesmente por medo
de naufragar sozinho?

ao menos
terei possuído parte ínfima do mar
o que é uma doce ilusão, eu sei
mas é assim que vivo
com uma cruz de amor desenhada no peito
sonhando com um mundo fraterno
e que todos os beijos nossos sejam sempre ternos

passar pelo Cabo das Tormentas
é necessário
para que ele se torne, quem sabe
o Cabo da Boa Esperança
que por o termos cruzado
conheceremos, talvez
laivos de amor verdadeiro
e a dança
dos corações felizes
das almas humildes
os rostos iluminados

e o rei tantas vezes esperado
talvez seja de fato verdade
el D. Sebastião, essa alegoria agridoce
cheia de saudade
que inventamos pra mudar as coisas
transformar nossas vidas
acreditar que é possível

dorme
por enquanto ainda tenho força pra girar o leme
o mar está calmo
e o Horizonte, brilhante,
enche meu corpo de fé
as névoas que teremos de cruzar estão distantes
quem sabe se desfaçam diante das nossas vozes

quem sabe façamos as Iras dormir
e as convertamos em doces ninfas do Atlântico
a velar
nosso cântico, a remar esse barco de carne
e afeto.

***

C. Berndt
16/12/2015

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