Orpheus, de Franz Stuck

terça-feira, 11 de novembro de 2014

OLHAR ETÉREO

enfim,
eu só queria que este meu olhar etéreo, sabe,
me levasse para lá


para o éter,
para além das nuvens
algum planeta onde haja só fluído, paz
e sorrisos sinceros

o meu olhar etéreo
que fita o impossível
que ainda chora as asas que perdi
num passado distante, relativamente esquecido
que sempre volta, lapsos no ônibus,
onda do mar, me vi n'outra vida

este olhar, sabe,
este olhar etéreo e vacilante,
é, na verdade, a encarnação da minha dor,
que é a dor dos famintos,
das meninos e meninas
explorados na China e em qualquer lugar
onde haja gente assim, sofrendo,
o olhar etéreo e triste dos homens e mulheres
cujas mãos são só feridas,
cujo sonho é uma saída
e a vida nunca lhes sequer
deu um copo decente de água limpa,
o olhar daqueles que têm olhos
mas nunca viram
o amor passar diante da tela,
da janela,
deitar-se na cama, nu
e aberto para um beijo,
o amor genuíno, puro, amor nuvem,
o amor, sabe, de que nos falou o Cristo...

então, sabe,
o meu olhar de nuvem pássaro mente
de vapor e de água azulada das cataratas de Iguaçu,
o meu olhar árvore que balança no outono
folhas amarelas,
papel dentro da gaveta, cartas que nunca foram enviadas,
o meu olhar
saudade
fado português
palavra sem tradução

é a minha maior prisão

mas é ele
n'ele
que sonho,
como não poderia deixar de ser,
gaivota,

a minha provável libertação,
utopia.


(C. Berndt) 

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