Orpheus, de Franz Stuck

quinta-feira, 24 de março de 2016

ainda é o mesmo lago
o lago de narciso

que nos hipnotiza
que nos faz parar em meio ao caos
à dor de noites frescas
sentar no mesmo banco de madeira
reparar no boitatá de ferro
na margem do lago erguido, ser de asas abertas
que não voa

e eu ainda aqui
a sonhar contigo

tanto tempo perdido, não é mesmo?

o lago de narciso
onde se reflectem as luzes dos lampiões urbanos
as luzes das estrelas distantes
as luzes dos nossos olhos assombrados

vejo-me na água
ainda sou o mesmo Orfeu ressentido

a espera d'um milagre
d'um abraço que não virá
do outro lado do mar

pois, não virá a mim o Desejado

as névoas que cobrem esta terra ilhada
não o trarão

nunca mais

e dentro do lago
quem me fita, desterrado,
é ainda o mesmo narciso,
face antiga,
afogada...

***

C. Berndt
18.03.2016

Um comentário:

  1. Só posso dizer que amei esse blog, me tornei fã.
    Aliás, qualquer alma sensível encontrará aqui um refúgio acolhedor.

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