Orpheus, de Franz Stuck

domingo, 6 de março de 2016

suave
mergulho dentro de mim
tão
delicadamente

que o faço como se estivesse a tocar um copo d'água
com a ponta dos dedos

mergulho

o barulho
de pingos d'água
bolhas de hidrogênio

os meus olhos fechados
só oiço então
os sons leves
sons doces
em sublime harmonia
a balançar como quem beija um filho
as paredes de éter, as cortinas fluídicas
do meu ser balançante

mergulho

sussurros vêm de algum lugar
uma voz muito querida
dizendo baixinho palavras de amor

mergulho

mais fundo
um pouco mais

em busca de mim e de paz

mergulho

não demoro a encontrá-lo
a sentir
as mãos de quem me espera
mãos tão suaves, tão ternas, tão lisas
e firmes
as mãos de um irmão
amigo
amante
meu coração

pouso
no chão
macio que lá existe
e o abraço com força

não
eu não preciso abrir os olhos
eu já o conheço há tanto tempo
tanto tempo

abraçamo-nos felizes
sentindo um o cheiro do outro

o tempo para
a saudade some

somos só nós
em paz
em paz

deitamos n'alguma lugar flutuante e tenro que nos esperava

ouvimos o canto de seres celestes
gigantescas e brilhantes medusas
balançando suas vestes

e ficamos, sim, a sentir nossa pele
a nossa epiderme
arrepiando-se
feliz
como quem diz
você finalmente aqui
aqui
você
aqui

ah,
mas mesmo a mais linda melodia chega ao fim
ao fim

quando eu subir de novo
à superfície
ele me acompanhará
sentindo
sofrendo
a distância surgir entre nós
mais uma vez

e eu ouvirei por muito tempo
o seu triste e melancólico assovio

a me chamar
a me dizer palavras de paciência
a me ensinar a amar e a esperar

esperar
esperar

o tempo em que mergulhar
não será mais necessário

terei voltado para o Mar.



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