Orpheus, de Franz Stuck

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Suspiros de um fim de madrugada em Coimbra.

  Ah, aí vem novamente o fantasma da madrugada, vestido em vultos, com seus pios noturnos e olhar de gato - seus olhos atravessam-me por dentro, fitam meu espírito,  desvelam meus medos e desejos.  Ele sabe exatamente aquilo que quero. E Sorri - um sorriso contido e indulgente, como aqueles sorrisos que escapam da boca das mães quando beijam, compadecidas, os seus filhos que dormem aflitos. Ele chora também. Chora devagarinho, tem pena do mundo e de suas penas. O mundo tem penas demais.Penas, reis, amores, cítaras, poemas... Julietas e Romeus que choram sob esta ponte que não leva a lado algum - ''ponte dos amores desencontrados''. Diz-se que há debaixo dela uma moça de olhar vago e braços finos, que ainda tem ânimo para tecer alguns versos, chama-se Inês. E Ele, a quem um dia chamaram Pedro I de Portugal, com o corpo esguio e queixo levantado, como se quisesse mostrar o brilho de uma coroa que não brilha mais, sussurra bem baixinho o nome dela... Mas tem medo que alguém o ouça.

«A Saudade,
eis a sombra roxa, rebelde e constante
que dá asas à imaginação do poeta, 
que bebido de insônias acha que consegue compor versos que traduzam o seu peito, os seus suspiros...»

a porta da imaginação
- por onde entram  ventos, palavras e sonhos - fecha-se de repente. 
A noite cala e o corvo grita: 
nunca, 
nunca mais.»


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