Orpheus, de Franz Stuck

terça-feira, 11 de agosto de 2015

MIRAGEM



aves de rapina num céu azul celeste
o sol forte mas ameno do solstício de inverno
iluminando a crosta sul da Terra

e eu
caminhante eterno
pernas que se afundam na areia fina
das dunas brancas etéreas
que se estendem por boa parte de Garopaba
sinto-me perdido, perdido no deserto

vertigem
as minhas pernas falseiam, a luz se torna opaca
miragens, imagens turvas da mente, tempestade de areia
as coisas giram

volto a mim
já não estou no sul da pátria do cruzeiro
o mar se foi
só vejo o Nilo

a minha pele já não é branca
mas morena, como o cobre
os meus olhos agora são estreitos e as pupilas negras, felinas
falo uma língua que não existe mais e
digo com força e orgulho:
KEMET!

escravos persas constroem um novo templo, lapidam paredes
o faraó está ao meu lado, digo-lhe nessa língua estranha
palavras que significam:

''Filho de Hórus, mal foi revelado, Atón já tem inimigos!
Seth, o deus escuro, aquele que ainda habita os corações humanos,
não descansa!''

O faraó não me ouve, está longe, em transe
o disco solar fala consigo
no norte, no entanto, falcões, os falcões de Amon!

aves de rapina num céu azul celeste
meus olhos se fecham como se pesassem o mundo
o entardecer se aproxima
sinto força novamente em minhas pernas, voltarei para casa

o meu coração flutua então mais leve
desço o caminho que me levou às dunas
o mar está calmo, quase sem ondas
penso: 

viajar no tempo nos dá ânimo
um certo sentimento de liberdade, asas
como as têm as aves
que voam por sobre a terra, por sobre as águas
do Nilo, do Atlântico...

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