Orpheus, de Franz Stuck

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Flores e andorinhas.




Esqueço de colocar açúcar no café, bebo e não me importo.
Caminho pela rua, às vezes tenho aquele impulso de contar uma novidade,
Mas vejo que você não está ao meu lado. 
Saio sem grande pressa, procurando qualquer lugar,
Um lugar para jantar sozinho e que não me lembre você.
Eu consigo, até reparar que a cadeira em minha frente está vazia. 
Me deito, já de madrugada, na minha cama de tantos pensamentos e pouco sono,
Minha mente ganha asas e gosto de me iludir que sinto o teu cheiro novamente.
Tem sido tudo tão pálido, sem músicas e nem livros coloridos.
Tem sido só silêncio. 
Eu quero acreditar que você não está tão longe, ainda.
Estou sempre a esperar aquela mensagem me convidando para passearmos,
Onde tudo começou...
Caminho sozinho no parque e reparo que poderia ser aquele dia,
há algum tempo, quando conheci seu sorriso.
A mesma temperatura, as crianças correm para buscar sua bola que foge para beira do rio,
os patos pedem por migalhas de pão,
O sol e deus  parecem generosos.
Mas, logo vejo qualquer coisa molhar, novamente, a página do meu livro,
aquela página da qual eu não consigo sair porque não há modo de ler sem que encontre,
em qualquer palavra e verso, algo que me faça pensar em ti. 
As lágrimas já são poucas e menos densas,
elas têm de parar alguma hora,
Mesmo que seja para disfarçar o meu dia,
Forçar sorrisos que não quero dar,
Cumprimentar pessoas e balançar a cabeça afirmando que "está tudo bem".
Não, não está tudo bem.
Eu me sinto pequeno e só.
Me sinto como se tivessem roubado todo meu verão,
tudo é só frio, inverno e solidão. 
Os últimos sopros do verão estão a esvair-se,
Já ouço o lamento de Démeter, no fim dessa estação,
Que tão logo terá a filha arrancada dos seus braços quentes,
Raptada e levada para os Infernos.
Talvez ela, a deusa-mãe do sol e também da chuva,
conheça minha dor,
Afinal,
nós dois choramos no fim deste verão,
Ela pela filha roubada,
Eu, pelo amor que parece perdido.
Logo é outono.
E minha alma, ainda quente dos teus braços,
Na esperança de flores e andorinhas futuras, 
Esperará o fim do inverno
E quem sabe, em outro verão.


Nenhum comentário:

Postar um comentário