Orpheus, de Franz Stuck

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Um pouco de Florbela.

     



     Ela é uma de minhas poetisas prediletas. Amo sua poesia, seus versos intensos, profanos e provocadores. Florbela Espanca é verdadeiramente uma mulher a ser sentida pelas almas incompreendidas, a ser cantada pelos seus admiradores, a ser ostentada no altar dos corações apaixonados e aflitos. Os seus poemas são fantásticos, não há como escolher entre eles. No entanto, um dos mais famosos é sem dúvida o poema intitulado, "Amar".


Amar

Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: aqui…além…
Mais este e aquele, o outro e toda a gente….
Amar!Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…

Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:

É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar.

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada

Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

[ Florbela Espanca - A mensagem das Violetas ]

     Florbela dispensa palavras e pede coração. Um dos poemas que mais gosto é este:

Mais alto.
Mais alto, sim!mais alto, mais além

Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem

O mundo não conhece por Alguém!

Ser orgulho, ser águia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!

Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível

Turris Eburnea erguida nos espaços,
À rutilante luz dum impossível!é 

Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber

O mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!

[ Charneca em Flor - Poemas de Florbela Espanca ]
     
    Florbela é a poeta dos desgraçados, dos amantes, daqueles que sofrem por amor. O que acha mais incrível a sua petulância, o seu "não medo" de externar seus sentimentos, a sua escolha em sofrer. Florbela realmente intriga poetas, leitores e até mesmo psicólogos. No caso de Florbela, "Froid não explica!". Gosto disso, algumas coisas não foram feitas para ser explicadas e nem compreendidas. Fecho este "post" com o magnífico poema, "Não ser".
Não ser.

Quem me dera voltar à inocência

Das coisas brutas, sãs, inanimadas,
Despir o vão orgulho, a incoerência:
- Mantos rotos de estátuas mutiladas!

Ah! arrancar às carnes laceradas

Seu mísero segredo de consciência!
Ah! poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas!

Ser nostálgico choupo ao entardecer,

De ramos graves, plácidos, absortos
Na mágica tarefa de viver!

Ser haste, seiva, ramaria inquieta,

Erguer ao sol o coração dos mortos
Na urna de oiro duma flor aberta!…
[ Charneca em Flor - Poemas de Florbela Espanca ]




Um comentário: