Orpheus, de Franz Stuck

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Nocturno



Numa madrugada de muitos pensamentos, eu fui ler um soneto da minha poeta de alma roxa, da triste e solitária irmã das mágoas, Florbela...


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Amor! Anda o luar todo bondade,
Beijando a terra, a desfazer-se em luz...
Amor! São os pés brancos de Jesus
Que andam a pisando as ruas da cidade!


E eu ponho-me a pensar... Quanta saudade
Das ilusões e risos que em ti pus!
Traçaste em mim os braços duma cruz.
Neles pregaste a minha mocidade!


Minh'alma, que eu te dei, cheia de mágoas,
É nesta noite o nenúfar dum lago
'Stendendo as asas brancas sobre as águas!


Poisa as mãos nos meus olhos, com carinho,
Fecha-os num beijo dolorido e vago...
E deixa-me chorar devagarinho...     ''


( Florbela Espanca, Necturno in Livro de Soror Saudade) 

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