Orpheus, de Franz Stuck

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Pássaros Pretos.



Abril nublado e de chuva fina,
desfile de guarda-chuvas,
 capotes e botas
que desviam das poças nas calçadas.

Abril preguiçoso,
        garoeiro,
cheio de tardes que pedem bolinhos,
duas chávenas, dois corpos
e um sofá de molas.

Tardes assim tão chorosas
           dão asas à minha melancolia,
fazem-na sair por aí, cinzenta, solta,
calada a olhar para os lados,
imaginativa.

O rouxinol que devia estar cantando
dorme recolhido nos buracos das úmidas árvores,

E os  Pássaros pretos,
- ouçam-nos -
dependurados nos galhos e nos fios,
parecem ser os  donos destes dias.
Pássaros pretos a gralhar a chuva, a chamá-la,
        um solfejo de notas tristes sobre os telhados.

Pássaros pretos,
              solitários como têm de ser,
descem, ás vezes, dos sobreiros
e pousam sobre os ombros das pessoas,
não são visto, nem notados.

Pássaros pretos
que servem para nos lembrar
de que o mundo também tem canções tristes,
de que o destino por vezes é pálido,
         espeta-nos com sua vara e foge
         com o rosto coberto.

Pássaros pretos,
pobres e desgraçados pássaros,
almas angustiadas que gra-a-lham solidão
em nossos esquecidos ouvidos.

Pássaros Profetas,
Sacerdotes das portas do eu,
Parte mística e órfã do nosso espírito.
       
Pingos e respingos
Lá vou eu,
com este corvo dependurado no ombro
            a sussurrar-me seus versos fúnebres,
cheios de uma saudade dolorosa,
ele chora a vida e canta a morte...

Por compaixão,
eu sopro-lhe as penas
 e digo-lhe com um desistido e
esperançoso sorriso no rosto:

«Blackbird singing in the dead of night,
Take these sunken eyes and learn to see.»


3 comentários:

  1. Que lindo! Eu adoro nuvens e chuva, não sei bem porquê mas é no meio do cinzento dos dias que me sinto bem! Quase tão estranho como ser a musica alegre que me deixa feliz e a poesia melancolica/nostalgica é a que mais me toca, como a tua. Obrigada por partilhares! *

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    1. Queria dizer musica triste que me deixa feliz

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    2. Obrigado, Teresa. Gosto muito dos dias chuvosos também, eles me inspiram tanto! Ás vezes também acho estranho sentir-me bem ao ler algo triste. Mas isto é algo bem antigo, os gregos não escreviam todas as aquelas tragédias, cheias de desgraças e sofrimentos? É a tal catarse, eu acho. É ela que nos faz sentir assim ao lermos um texto ou assistirmos um filme triste....

      Beijinhos!

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