Orpheus, de Franz Stuck

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Vaga-lume



Basta somente eu imaginar,
imaginar com os olhos da lembrança,
a tua face,
a dizer-me muitas coisas com os olhos,
coisas para as quais dispensa-se as palavras
e a boca.
A boca, a tua, é a que arrepia o meu corpo
e faz de noites que seriam frias em nada,
noites cheia de estrelas e vaga-lumes
que cantam na língua dos deuses.

Sozinho, nas noites em que durmo só,
vejo, palpitar na minha mente,
a tua imagem,
que some e aparece,
some e aparece,
como um quadro no escuro
vítima da luz de um vaga-lume...
Um vaga-lume que brinca,
brinca com meus desejos
e faz meus lábios morderem-se de ansiedade,
quando a tua imagem desaparece no escuro.
Acende, apaga,
um movimento de oscilação,
graduação,
no rítmo exato que a minha mão desce e sobe,
desce e sobe,
a tentar tirar do meu corpo o que a natureza me pede...
E depois,
enfim,
quando a mão já descansa sobre o corpo,
a tua imagem acende-se completamente,
como se tivesse uma candeia ao pé,
que este vaga-lume aprendeu a imitar tão bem.
Ainda sinto que quero o seu corpo,
o seu sorriso,
mais dias e mais na sua companhia...
A candeia se apaga,
o vaga-lume se vai...
Tudo se perde em vultos,
o arrebatador de consciências, o sono,
bate seu martelo...
Tudo não demora a se perder em sonhos,
nos quais todas as flores têm o teu cheiro.

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